LUSA & OBRA COMPLETA ANO 2000

LUSA : OBRA COMPLETA

 Joel Almeida

2ª edição

Proibida a reprodução, total ou parcial, desta publicação, seja por qual for o
meio, eletrônico ou mecânico, sem a permissão expressa do autor da obra.
Revisão
Regiane Milla da Silva
Capa
Pedro Henrque T. Rêgo
Projeto gráfico e diagramação
Eduardo Fernandes e Regiane Milla da Silva
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ALMEIDA, Joel. 1976-
Lusa
/ Joel Almeida. - Montes Claros: 2000. (1ª edição -)
/ Joel Almeida. - Curitiba: 2005.
1. Romance Histórico.
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Olá!? Sociedade dos poetas vivos, vamos estocar nos
Museus brasileiros os ossos dos velhos dinossauros que
Existiram por aqui, são relíquias preciosas, vamos agora
Preservar pequenos animais, estão correndo risco de extinção,
Esqueçamos a partir de agora os velhos dinos e apreciemos
Os pequenos vivos. (Joel Almeida)




CAPÍTULO I
O MEU ENCONTRO COM AJADJA


            Ontem, os céus introspectivos daquelas doces ilusões mentecaptas da alma acerba estavam muito cinzentos. As gaivotas alucinadas de minha imaginação voavam tranquilas, bem distantes das areias de minha praia desértica.
            Eis aí para todos verem, um velho “estúpido” lendo esse parco livro de “romance histórico” na varanda de um casarão antigo. Outrora, quando morcegos voavam em torno dela, e aranhas teciam teias pelos seus tetos, todos diziam ser mal assombrada.
            O ilustre varão de olhos negros e cabelos brancos encaracolados só pode ser o caduco Ajadja. Traja roupas estilo caipira, aquela camisa xadrez desprezível de interior de Minas Gerais. Essa obra perlustrada responde questões existencialistas? O ar de magia da capa negra escrito “Lusa” transmite um ar de denúncias. Quais são as ideias absolvidas por esse pensador erudito de óculos de grau com lentes embaçadas? Suas feições apresentam aparência de um homem de grande espírito extasiado pelas dúvidas? Ao contemplar as letras nas páginas, não pisca, nem mesmo observando a esplêndida aurora acompanhada de borrifos. Seus  ouvidos escutam o zunindo das muriçocas. Elas se embriagam com seu sangue quente. Ele parece-me um gladiador com o coração cheio de amarguras, estigmas causados pelas dores do tempo. A existência nunca beijou sua face fustigada pelas desilusões. Essas são as estupendas vergonhas céticas recebidas para expressar ao público a inutilidade de muitas filosofias. Não existem razões em muitos conceitos metafísicos alienados a corrupção. São loucuras indigestas, e quimeras que nunca serão alcançados pelos mortais nesta terra. O vislumbre do delírio, isso é todos nós, com a síndrome inútil de nossas frívolas ideologias. Na verdade, tudo nesse mundo das artes horrendas, parecem fantasias pornográficas, estúpidas chagas drásticas das falácias intelectuais. Uma mesquinharia tosca unida contra princípios vitais estabelecidos pelo governo do motor onisciente. A equação da voz entibiada da mórbida globalização defensora de uma cultura universal esfrangalhada. Por que não acordamos para ver as cataratas venenosas? Sem razão se destrói esse verme cara-de-pau vítima da ganância inescrupulosa.
            O Neardenthal maltrapilho darwiniano evoluiu seus desejos exorbitantes e vegeta nas metrópoles. Esse semilunático é o mesmo espírito arrogante dos laboratórios. Os  fantoches clonados prometem um futuro sem sofrimento? Eu curiosamente preciso conversar com Ajadja!
Então, me aproximo e quebro seu silêncio:
           ─ Olá!  Qual  teu nome verdadeiro, Ajadja?
            ─ Por que falaria meu nome para um jovem? Que isso lhe acrescentaria?
            ─ Bem... ─ intervi-lhe ─ Então me diz qual sua idade, meu senhor?
            ─ Minha idade ? Que diferença faz?
            Contrapus-lhe:
            ─ Oh! Sempre penso no acréscimo do conhecimento advindo do fator tempo, senhor! Pois os dias acrescentam sabedoria à vida dos investigadores em busca do saber.
            ─ Sim! Daqueles sedentos em busca do saber! Também se acrescenta muita ignorância dia-a-dia na mente dos ignorantes. Nossa história se divide nessas duas esferas: sabedoria e ignorância. Quanto a mim, pouco me interesso por questões assim, não me acrescentarão nada. Se conjeturarmos a partir do nada o mover de todo nosso existir, com o ignorante se aprende muito; aprende-se a não agir como ele. Tudo contemplado nesse caos telescopiado pode ser útil para revelação do além, se a conclusão é que o nada é.
Então conclui:
─ Sim! Ninguém me falaria do invisível, sem uma razão óbvia, ou seja, a representação visível, para dar sentido a fé quando não se vê. Grande Ajadja, vós já ouvistes falar de Deus sem refletir primeiro sobre as coisas palpáveis?
─ Claro que sim, garoto!
─ Uns são teístas  e outros ateus. E o senhor, Ajadja?
─ Eu? ─ sorriu Ajadja como uma criança amamentada, sentindo o cheiro do leite da ama ─ Que diferença faz? Qual Sentido teria Deus para mim, se eu não observasse todo esse universo multicolorido para um eu perplexo e complexo? Se o vejo, devo acreditar a partir de um ponto de vista. Quero não ver para crer. Só assim se crê para ver. Pois eu o vejo. Ele não se vê se não for pela fé. Nossa geração escuta essa sinfonia silenciosa? Seus ouvidos surdos só gostam de ouvir sons barulhentos dessas bandas de rock’n roll. Eles gozam uma liberdade assassinada antes dos limites. Porventura “almas penadas” têm espírito de liberdade? Quem ociosamente entende um discurso sem palavras? As ilusões prendem a mocidade e a detém nas paranóias futuristas da arte medíocre. Isso atormenta quem passou por todo esse processo de aventuras, e não passa de um idoso desesperado, assentado numa varanda de uma casa de campo, esquecida na memória vaidosa de quem moeu a mesma existência pachorra. Quando as estrelas se apagam na escuridão inerte, tudo só nos faz lembrar do tédio chamado morte. Afunda-se nosso barco solitário. Expressemos agora tudo não encontrado nas noites de diversões mergulhadas em nosso prazer transitório. Qual vantagem eu tenho elevada acima da sua, meu leviano mancebo? Se tu estás no introito da flor de um pé de alface?
─ Não sei, posso jurar que estou confuso em relação a isso, Ajadja!
─ Então qual o princípio? Qual o fim? Qual é seu meio? Como me responde a diferença se não teve início? Responda-me agora onde cabe o meio, sem alfa e ômega? Tem significado uma muda de cebola plantada nas sombras de um pé de jatobá?
─ Ah sim, Ajadja! ─ intervi-lhe. ─ Não são nem o meio, nem o fim, nem o começo, são apenas muda de cebola e pé de jatobá. Não têm significado lógico nenhum, não são nada, nada, nada não... O coração é inteligente quando sente amor. É burro quando sente dor, forte quando nem um nem outro, apenas neutro, como quem busca a razão para ambos.
─ Rapaz! ─ continuou Ajadja  ─ Já vi gente indo e gente vindo. Pessoas passando e pessoas ficando. Pobre com espírito de rico, abastado com espírito mesquinho. Porém, nunca vi alguém não se apegando a nenhuma crença. Seja ela qual for, até mesmo a descrença em todas as crenças é uma auto-expressão de crença.  Se eles desacreditam em tudo para acreditar que não existe nada, na consciência confessam: não acredito em nada.  
─ Quantos anos tem essa casa onde o senhor mora, Ajadja?
─ Qual sua idade, garoto? - Perguntou-me ele atalhando.
─ Minha idade? ─ sorri como o faminto quando recebe nas mãos um prato de sopa bem quente e cheirosa, com todo sabor da comida brasileira. ─ Porque um senhor idoso levaria em conta os anos de um jovem? E qual a idade do senhor? ─ perguntei-lhe outra vez.
─ Oh! ─ ele me olhou meio assustado, como um admirador surpreendido por uma revelação de um talento pedindo uma chance para demonstrar sua nobreza desconhecida, numa pátria cega; a mesma fez de Ajadja um dos únicos idealistas enxergando bem com os dois olhos. ─ Na verdade, digo-te:  às vezes, o túmulo de um moço traz mais admiração para um povo. Muitas sepulturas antigas guardam apenas encantadores das lendas e fábulas dos cabeças brancas. Insensatos enganadores, pedras cheias de conceitos obsoletos que derramaram sangue de almas, em nome de uma religião. Suas psicologias satânicas nunca construíram algo para nos convencer que o mundo pode ser melhor. Mesmo com tanta dor fazendo o poeta delirar em versos e bramir, “ainda se eu falasse a língua dos homens e língua dos anjos, sem amor eu nada seria, pois só o amor conhece a verdade”.
Essa verdade soa aos meus ouvidos, ensinando-me que o amor está acima de qualquer crença e religião. No mundo dos Anjos, ele é superior a sua linguagem erudita, mesmo em face de todas as palavras estupendas de presunção intelectualizada. O ensino filosófico sem amor nada vale. A pedra de tropeço das religiões é o amor. Os animais não escrevem livros, nem estudam em universidades. O mundo deles não tem leis da razão. Não são racionais como os humanos. Não sabem sentir o amor, mas de vez em outra os flagramos, uns defendendo os filhos ao ponto de entregar suas vidas aos predadores. Eles defendem suas espécies contra feras, e nós continuamos naquela; prega-se e não se vive. Os fervorosos matam por causa dessa fé.  Sem uma prova vale a pena isso? Qual é mais impotente: a religião ou o homem? O poder e riqueza de um país, ou as pessoas que o edificam como nação? A religião foi criada por causa de nós, ou fomos criados em conseqüência da religião? Seu país existe por sua causa, ou tu exististe por causa dele? Tu dizes “amor”, tu dizes “eu sinto”. Logo, me diga a finalidade de provar que existe um valor pregado por ti! Quando na prática tu se comportas como um mentiroso? Quem sente mais o animal que não prega e prova, ou  tu que dizes “eu sinto”? Tu provas ser um hipócrita fingido. Manipulas as mentes confusas em nome de uma doutrina. Tu mesmo nunca ousaste viver como a tens ensinado? Quer fazer valer a pena? Dê sua vida por ela.  Não mate vidas em nome dela, se és um covarde! Não se torne herói em nome de uma multidão de seguidores fanáticos. Os idólatras adoram as aparências ludibriadoras do santo-humano. Porém, eles em  si mesmos nunca acreditaram no seu falso discurso de promessas. Os idiotas não podem cumprir, senão teriam morrido por suas filosofias.      
─ Oh, filho querido! ─ disse-me Ajadja ─ vou te contar uma história. Saberás as razões de essa alma levar em conta os anos de sua juventude... Não sejas como filhotes de passarinhos, feche a tua boca, abra teus olhos, e preste atenção no que ouvirás, como se comportam os jovens quando são jovens, e como ficam quando se tornam como eu.
















CAPÍTULO II

História de Heróis e Mitos HerOicos


 

Os homens ouçam, enquanto mulheres façam silêncio, pois Ajadja vai falar. Assim as coisas entram no eixo e acaba a guerra dos sexos. O verbo dói, mas não mata ninguém, salva nações e derruba reinos, exalta o humilde e abate o orgulho do soberbo. Essa conversa não precisa chegar à cozinha... Os ratos e baratas frequentam mais esse lugar atualmente. Nossas mulheres estão modernas. Elas conhecem muito de camas e quartos de motéis. Os homens estão entendendo mais desse assunto... Isso vocifera machismo, e ofende feminismo, porém, estou em cima do muro!
 ─ Eu quero ser preciso em minha comunicação. Seu coração deve ansiar um pouco daquilo desprezado, quando é o fato que poucos querem ouvir. Como entenderão neste mundo de gestos sem ação? O pensar está adormecido no âmago da alma dessa gente sentimentalista no peito e desventurada de mente. Alguns homens brutos se dizem inteligentes pelo acúmulo de conhecimento histórico das ciências. Se a história realmente ensinasse a humanidade algo proveitoso e instrutivo para apaziguar os povos, nossa história seria um espetáculo de arrependimento e os mesmos erros nunca mais cometidos. O homem da biblioteca conhece muito através do passado. É o famoso papagaio. O coitado não sabe no íntimo quem ele é. Apresento-lhe o indivíduo experimental. Esse coloca as mãos no fogo e as queima. Sua grande tentação será colocar as mãos nos diversos tipos de fogos para conhecer as coisas. Seu erro é grave também. Ele fere princípios e culturas para obter as massagens para seu ego.  Existe em nós o exasperado homem reflexivo. Está apenas na superfície dos acontecimentos. É frio como o jogador de xadrez dentro de um hospital cheio de enfermos à beira da morte. O quarto é achado no mundo sensível e da imaginação. Vive em outro planeta, tem o potencial de criar o lugar das maravilhas e as mais belas artes e poética sensível. Nossa educação precisa gerar todos eles dentro de nós. A questão vestibular já se tornou um problema, é uma seleção sem levar em conta essa abordagem. Eu gostaria de deixar minha opinião. Todos estejam cientes da necessidade de seguir opiniões e ao mesmo tempo não são forçados a aceitá-las. Eu aposto minhas fichas em um processo justo de seleção. Nesse ápice serão levados em conta todos os tipos de conhecimentos aplicados para demonstrar a qualificação do sujeito. Serão testados em igualdade e em campo neutro, onde as regras e fases não serão basicamente as lições de fundamentos e “decorações das estantes”. Os bons mestres do ensino descobrem os dons e habilidades quando são escolhidos para fazer uma análise precisa com atitude de boa fé. Embora nessa ideologia exista, a prova para somar nota não será o critério de rigor, apenas uma forma de mostrar o que sabemos das teorias dos outros. Depois, gostaria de falar minha opinião sobre esse assunto incômodo em outro discurso particular. A opinião de um homem deve ser levada como conselho quando for experimentada  e aprovada como uma filosofia de esperança para frustrações como nossa metodologia educacional. As pessoas sempre têm opiniões diferentes sobre determinadas coisas em nossa existência, isso faz de nós seres únicos nesse extenso universo. Basta apresentar um tema, ou projeto para discussão, com intenção de colher as opiniões alheias, que perceberemos respostas e pontos de vistas distintos em relação ao mesmo objeto apresentado. O grande problema não está relacionado à diversificação de opiniões, mas em termos um esclarecimento objetivo sobre qual delas é realmente a mais consistente e apropriada para o assunto em questão. Em meio a tantos relativos que confundem as mentes hodiernas ofuscadas pelo excesso de informação, facilmente os indivíduos abrem mão de sua própria opinião sem refletir muito sobre os novos juízos a serem seguidos. Quando perdemos o domínio sobre nossas próprias razões, nos direcionamos a um caminho que nos leva a ingênua ignorância, pois o fluxo contínuo de reflexões a respeito da estrada tortuosa é uma perturbação dolorosa. Se no caleidoscópio as combinações do efeito visual apresentam diversas figuras coloridas multiplicadas, encontraremos  mais padrões ornamentais indicando o lume da verdade do que numa visão tridimensional de vários indivíduos com ilusões de ótica, embora focalizados pelas visões robóticas de uma imaginária perfeição. Acredito que pensar é algo de poucos homens, porém, seguir opiniões é coisa da multidão sem bom senso. Hoje está em pauta a discussão de nossos valores e estilo de vida. A imposição de ideias não é fruto do acaso, mas sim da apresentação de várias opiniões diferentes para o mesmo assunto, isso com intenção apenas de confundir o receptor das mesmas. A conclusão disso é absorver em meio ao embaraço aquela mais democrática, embora isso não seja verdade. Vale  a opinião da maioria, não o gosto ou estilo pessoal? Não temos como negar alguns fatos, no entanto, é questionável aceitar os fatos distorcidos apenas para satisfação do grupo. Sigamos a diversidade, mas não esqueçamos que o homem com um bote pode se salvar num naufrágio, e toda tripulação desprovida dele morrer afogada.
Veja! O ancião Ajadja conta os tempos de nossa juventude e explica com uma voz branda. Contar histórias o deixa sereno e os questionamentos dos mancebos o motiva cultivar a alegria.
─ Muito ousarei agora com firmeza de espírito, a paixão pelo que dedico minha existência: contar histórias de heróis e de mitos heroicos. ─ continuou meu amigo Ajadja ─ Escute-me: os nossos super-homens nem sempre passaram por um longo “cronos” para desenhar rastos na história da humanidade. Os dinossauros me perdoem, mesmo se eu for cruel. Muitos coelhos deixaram mais pegadas na poeira da estrada do que muitos deles. Quero minhas mãos limpas. É bom bater de cara com muitas mentiras em rolos de papéis toscos.  Os jovens dão lições muito importantes e são indispensáveis para dar vigor ao coração humano. Estamos amedrontados, desafiados pelo destino, ele faz crescer chagas mortais de arrepiar. O hipócrita  Shakespeare e os dramaturgos das telenovelas brasileiras estão esculpindo alguma forma de caráter frouxo imperceptível em nós. Sãos os lobos empoeirados nas estantes da minha avó. A máquina de lucro dos impressos dos falaciosos sofistas.
Ajadja é o belo e um dia ficará velho. Morrerá sentado na velha cadeira da varanda, ao invés da estúpida cadeira ABL.  A falsa modéstia constrói sua história a base da venda dos milhões de títulos com o selo falsificado da mídia aristocrática.
E assim Ajadja conta...
Apresento-vos um homem! Contarei um pouco a seu respeito. É meu grande amigo. Nasci para conhecê-lo. Seu nome de registro no cartório é Brasil. Colocado por seus irmãos, quando uma senhora sardenta do asilo o deu a luz.  Ela fugiu da casa de repouso em busca de liberdade, por achar o espaço onde morava muito pequeno para gerar um filho. A portuga queria um lugar mais espaçoso, para colocá-lo para fora do seu ventre sujo. Aquele filho seria a novidade para herança roubada. Traria esperança para sua pobre família, que não esperava muito de uma velha ruguenta e encalhada. Estava na rabugenta menopausa, não tinha mais fertilidade para gerar filhos... Então, fugiu para o meio da selva distante do fedorento asilo. Uma pátria chocha onde existe até hoje em pleno gozo sua bisavó Lisboa. O herói Brasil nasceu às pressas no mato. Um verdadeiro selvagem, nu, como um filhote de orangotango da floresta amazônica. Atraiu contemplação de diversas pessoas. Era um menino muito belo e com cara de burguês tupinikin. Logo, começou a crescer, e despertando os olhares das mocinhas. Tu já viste aquelas nobres filhas de reis poderosos? Brasil tinha pele morena, luminosa e sensível. Não tinha barbas nem pelos, era musculoso, sensual, mesmo ainda não tendo malhado em academia nem desfilado na Sapucaí. Seus cabelos  eram lisos e brilhantes, olhos negros penetrantes, como uma espada afiada. Seus lábios grossos pediam beijos das portuguesas. Era o macho dos sonhos de toda donzela europeia. Aquelas frívolas damas que gostam do sopro romântico do vento do amor exalando perfumes libertadores dos seus desejos amorosos adormecidos, aquela coisa encantadora das princesas francesas. Brasil passeava pelos vilarejos, viajava a cavalo, plantava café, cana de açúcar, e frutos da terra como meio de adquirir prosperidade. Isso era atraente. Naqueles idos quem tinha boas condições era como ouro aos olhos dos piratas do alto mar. Forte candidato a se casar com uma beldade de sangue nobre. Claro, quando falo de nobreza, estou pensando em mulheres da pátria que sonhavam conquistar seu grande amor. Isso é dádiva de Deus. Imagine um romance aqui, em meu país, nessa terra formiguenta onde nasce tudo que se planta. Os mais lindos campos, praias, céus... as donzelas das várias partes do mundo alimentavam esperanças de conquista. Ganhar o coração de um homem formoso; queriam conhecê-lo.  Estabelecer alianças, entre famílias e pátrias, assim os coroas de ouro se alegravam. Gozavam a satisfação do seu maior motivo de orgulho: a exaltação do seu ego nacionalista.
Ajadja não conta histórias de mitos heróicos, esse assunto chato de mitos heróicos de Homero. Tu  queres continuar dando atenção à realidade esclarecida por Ajadja? De maneira compreensível, ilustra a memória desse amigo de infância. Muitas pessoas o conhecem, mas nunca mostram entendimento, o porquê de sua verdadeira situação. Brasil sofre tortura, espancamento, humilhação, desprezo, zombaria por onde vai. Tem amadurecido e deixado sua voz forte penetrar na audição dos surdos avós. Os vizinhos dele andam mancando das pernas, fazendo cocô e xixi na roupa, como bebês. Esse querido é amado de minha alma, pois tenho sede e fome de justiça. Perambula nessas acerbas décadas negras, como um mendigo abandonado numa fria esquina esquecida, onde não passa ninguém para socorrê-lo. Mas disse o grande sábio: “bem aventurados os que têm fome e sede de justiça porque esses serão fartos”. Desastres acontecem com bons e ruins, estamos debaixo de um juízo tremendo, até as próprias leis da natureza nos julga dignos de morte. O pecado mais grave é ser homem pecador, pois “o salário do pecado é a morte”. Não nascemos condenados à morte, mas livres para escolhermos viver ou morrer. Meu companheiro de muitas jornadas, Brasil, tem tudo para gabar de boa saúde, mas está totalmente doente, sobre uma cama gerando nele fraqueza e vontade de ser um paralítico. Um aposentado com bolsos furados. Só abre a boca para queixar-se e lamentar suas desgraças e frustrações intermináveis. Eu quero com toda lucidez de espírito proporcionar-lhe um raio de luz. Um relâmpago para rasgar a escuridão de sua alma e o levantar como um grande homem. Desejo vê-lo maximizando o imenso potencial.  Brasil tem força e poder para mudar a situação em que anda atolado, dependendo das esmolas de suas amantes. Essas peruas vivem zombando dele, pois, às vezes, falta gás em sua casa, depende do vizinho e da bolsa escola para enviar seus filhos para serem caducados. Seu socorro é ir atrás das louras vagabundas das esquinas européias. Não sei se meu amigo é preguiçoso ou é falta de trabalho, pois o vejo murmurando para pagar seus impostos e dizendo ser por não ter serviço.  É um elefante burro e não sabe a força e poder adormecido que possui. O leão o mata, come sua carne e sobra o resto para os outros bichos. Afinal de contas, o que aconteceu com meu amigo Brasil em seu passado para viver hoje assim? “As más companhias, corrompem os bons costumes”. Primeiro, confiava muito nos seus “amigos” da classe nobre. Eles diziam:
─ Somos capazes de morrer para demonstrar nosso amor e fidelidade a ti! Queremos que tu sejas livre! Veremos liberdade! Lutaremos para que sejas um sujeito independente! Levantaremos a bandeira e te defenderemos! Declaramos morte, a quem for contra sua independência!     
─ Oxalá fosse assim! ─ disse Ajadja ─ Ele  tinha um amigo da onça. Esse puxava espada por ele, era um doutor, ou melhor dizendo, um dentista -  “O tirador de dentes” como diziam as pessoas. Na vila Ouro Preto, todos o conheciam assim. Era um sangue aristocrata, abriu a porta do inferno, para uma falsa mentira.  Caiu no calendário nacional. Declarou feriado em nome de seu amigo Brasil?         
Ajadja lê o livro de quinhentos anos, com o mito de um cabeludo enforcado em busca de liberdade, pois colocou outro em seu lugar e embarcou para Portugal. “Libertas, que serás também”? O nome desse Livro nas mãos de Ajadja é Lusa. É uma mentira de máscaras e não conspira à memória. Quem protestou ser esse demagogo enforcado libertador da pátria? Onde se viu um homem libertar um povo? Liberdade é sair debaixo de um domínio político? Não. É criar cidadãos de espírito livre da cultura escrava. Que espírito livre tem escravos assalariados de uma falsa independência? Somos escravos-livres? Ajadja te declarará a seguir sem pudor:
─ E o sangue inocente que derramaram de meu amigo Brasil, quando sua mãe sentia dores de parto? Não era Brasil uma criança livre da opressão? Não lhe santificaram sangue mártires da pátria na terra de ninguém onde suas filhas foram violentadas?  Nós somos frutos da bizarra armação para nos produzir mais um herói nacional  no mês de abril. Não passa de um mito do diabo! O Rio do Ipiranga deveria ter vergonha do grito rouco de outro às suas margens. Foi outro mito de um herói covarde. Um político gritando em nome de um povo. Pegou nas mãos as chaves de uma grande cadeia cheia de presos, foi para beira de um rio de águas poluídas, devido tanto lixo e sujeira em suas margens plácidas, nem lembramos quase o nome dele!  Para sermos melhores esqueçamos o mesmo. É tão insignificante, aliás, nem conhecido mais por nossas crianças nordestinas. O rei da escravidão levantou a chave para os céus e gritou para os escravos: “Independência ou Morte!” Abriu as portas da cadeia. Os presos continuaram lá dentro, como se nada estivesse acontecendo, depois vieram os verdugos e as fecharam de novo.  Os escravos não foram educados a respeito da liberdade. Para eles liberdade é comer, beber e dormir um sono gostoso e acordar assistindo televisão. Os  primeiros escravos tinham isso garantido. Hoje não se sabe se o mínimo no final do mês garante isso. O espírito é superior ao corpo, e meu amigo Brasil precisa ser educado para se libertar das trevas. Ele anda com o espírito doente...  “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Não o grito de um rei! O espantalho não ensinou nada sobre seu grito rouco de independência. Só pode haver liberdade, quando se atinge o povo pela verdade contagiante na alma. Não é por um homem com uma espada, uma chave levantada, contra um trono real. Aqui, meu amigo começou se embaraçando em enganos e misérias, maiores do que a fome e a pobreza. A mente fraca desnutrida pelo estômago vazio, sentimentalismo comovente, corpos dançantes do carnaval e futebol, mas não tem ocupação de mente... “necessário vos é nascer de novo”. Tudo mora dentro dele, corrupção e podridão. Isto corrói o tronco podre, mesmo sendo Brasil um moço de bom coração.
─ Oh, Ajadja! E o amor? ─ perguntei-lhe contrariado, após tomar um copo de água fresca do filtro de barro que estava sobre a mesa da varanda.
─ Amor! Claro, claro! 
─ O romance e o casamento de Brasil? Tu  disseste que ele  tem um coração bom, provavelmente amou muito!
─ Me deixe descansar uns minutinhos! Depois começo a te contar esta parte, certo?- cochichou-me ele.
─ Sim! Sim! À vontade, senhor Ajadja!

 

 

 














CAPÍTULO III

 

O CASAMENTO DE BRASIL COM UMA PRINCESA   LUXUOSA


Lusa é a mulher dos sonhos de todo homem. É linda e atraente, como as ondas do mar aos olhos dos surfistas. O lugar onde ela veio habitar, quando abandonou o castelo e a posição de honra que tinha como filha da poderosa família real portuguesa foi no coração do índio Brasil de Santa Cruz de Cabrália, nas  regiões do estado da Bahia. Uma mulher sem uma forte decisão de conquistar um cavaleiro o ganha como uma mãe ganha sua criança com um pirulito. Quanto mais uma princesa com disposição total para ter nos seus braços o homem desejado. Este romance aconteceu na vida real, por isso Ajadja poupará, em princípio, o nome da moça para não ficar exposta as críticas dos leitores essa esplêndida figura. É muito conhecida do público brasileiro. Mas por fim, por liberdade de sua mãe, quando chegou ao Brasil para visitá-la, a chamou pelo nome de Lusa. Eu a conhecia por “a bela de Portugal”, a moça linda da corte, a portuguesinha de nariz empinado e loura exuberante, entre outros adjetivos assim... Também, esse nome estava escrito na capa do livro de Ajadja, e na carta vinda de Portugal.  
Ajadja não contará conto de fadas para as brasileiras acostumadas ouvir. Elas acabam suspirando fundo, porque no final sabe que tudo terminará bem nessas pragas. Isso é de costume em romances das literaturas narrativas do assunto em discussão por Ajadja. Mas suas intenções são transparentes, vão além do comércio ganancioso das jóias portuguesas. Às vezes, são considerados grandes escravos de Brasil os que mexem com as emoções das massas. Ajadja coloca como pretensão em primeiro lugar o que deveria estar em dia. Ele não abusa da emoção. Na verdade ela é uma grande fonte de se obter lucros. Quando ele estimula nossa reflexão, quer criar um bom senso crítico, quase insuportável para corações à procura das grandes emoções das telenovelas.             
Embora a considerasse importante à vida, seria ignorância tentar imobilizar aquilo natural em nós. Então, Ajadja nos afirma que apenas quer nos advertir:
─ Amigos, a dramaturgia e tramas em excesso é um veneno e precisa ser dosada na vida do Brasil dessa história. Você concentra-se para ouvir uma música suave, se seus ouvidos andam cansados de barulho?
Os fenômenos de manipulação atacam gravemente as emoções desse sujeito, treinando-o, estimulando-o à fraqueza. Logo, isso tem decidido questões importantes de nossa bancada escrava.
Não podemos passar toda existência assistindo cenas teatrais de Shakespeare, precisamos escutar os discursos de Ajadja que desafiam o pensar. A transa poética cria cidadãos mamelucos moles, esses vivem à base de gestos sem ação, e eles não mudam o povo, e sim as razões da verdade testemunhando de si.
           Nunca  devemos cristalizar as lágrimas. Deixemos a auto-reflexão tomar conta do nosso espírito, para nossa alma ser transpassada pela espada rutilante dessas palavras sem dom artificial de nenhuma espécie para seduzir seu bolso.
Ajadja está desenrolando o desprezo, a vergonha, a crueldade, o racismo e o desamor enfrentado por um homem atraído à primeira vista. Tornou-se marido de uma princesa européia. Uma luxuosa esbanjadora o fez desconfiado, mal amado, e projetou sua baixa auto-estima.  
Ela se despediu, com beijos e abraços de sua família e criados da corte. Daqueles educadores dessa doce loura, meiga, sereia sensual. A dama do ouro cravou a lança da dor no coração deste poderoso e nobre Brasil. Os filhos da terra de Pedro Álvares Cabral.
Uau!!! A pomposa entrou em uma caravela. Navegava ambiciosamente ao encontro de seu destino. Essa  união  parecia ser o grande romance, citado nos versos, prosas e crônicas de poetas, célebres e idealistas de um passado remoto. Isso deixa Ajadja tenso ao comentar o assunto; lágrimas caem do seu rosto chocho.
Ela desafiou os perigos marítimos, os piratas aventureiros das águas agitadas do Oceano Atlântico, que além de saquear os bens dos navegantes, ainda abusavam das donzelas a bordo, isso tudo só para visitar aquele homem, que desvendara os mistérios do seu coração. A virgem donzela procurava um grande amor. Filha única, de uma ilustre família de Portugal, a flor exalante dos poemas de Camões. Louca se queimando de paixão e vontade de enamorar um moreno de aparência encantadora. Ele mexia com as estruturas interiores das mulheres dos vilarejos. As índias moreninhas observavam sua incontestável e irresistível elegância única, beleza incomum e natural, sem  igual no planeta terra.
Foram meses de viagem. Certa madrugada, as ondas começaram dançando com a solidão de uma noite fria de ventos veementes. Seu sopro sacudia a embarcação, onde vinha uma mulher com uma paixão  exorbitante pôr meu amigo Brasil. De certo ela era uma daquelas criaturas ambiciosas. Dormia de olhos abertos, e agia como jacaré de parede. Vivia detrás das paredes do castelo prestando atenção nas conversas dos seus pais.
            Era também atenta aos alvoroços dos lábios das jovens solteiras do palácio, pois elas elogiavam Brasil, tinham sede de vê-lo tal como é.  
            Ouvir falar dele toca as profundezas de qualquer bela adormecida esperançosa das chances de cair nos braços de um homem. Brasil sensibiliza a alma pronta para viver um grande amor romântico. Toda  experiência marcante, desperta o charme feminino e  faz a desgostosa se sentir uma mulher de verdade com gosto pela vida, feita para ser tocada e amada, envolvida pelos laços do amor.   
            A turbulência da tempestade começou a cair, balançava o navio, medo e pavor caiu sobre todos. Quem  não teria medo? Diante de tal situação? Se os mares daquele tempo, comportavam grande quantidade de tubarões. Eles estraçalhavam carnes frescas, como comemos pipocas numa cessão de cinema.
            Oh! A portuguesinha apaixonada apanhou nas mãos um rosário. Era  seu amuleto de sorte, sempre o trazia, era católica fervorosa. Desceu  ao fundo do porão do veleiro e abriu um baú com uma cruz negra na tampa. Lançou-se ansiosa sobre uma bíblia, e apanhou rezas e ladainhas imprimidas em papéis que havia depositado ali e tinha esquecido. Citou  alto aqueles textos, como quem está em angústias da morte. O  navio começou a balançar como uma palmeira agitada pelo vento. O capitão gritou forte:
              Calma! Calma!
            Tudo virara um rebuliço, misturado com fé e esperança.
            Quando toda tripulação se inquietou, os relâmpagos e nuvens negras fugiram dos céus, com uma velocidade de trem bala. Dava até para acreditar em respostas às petições das horas de afoito. Também o sol apontava seu nariz brilhante, seu rutilar anunciava que tudo ia terminar bem. Aves voavam em bandos coloridos, deixando todos com um sorriso na face alegre, pois isso era um sinal da aproximação gloriosa da terra firme.  
            ─ Viva! Viva! ─ jubilou a portuguesinha vaidosa.
            Ela atravessava o Atlântico arriscando a vida pela vontade de poder, tornar-se rainha numa selva misteriosa. Os  jardins suspensos da América Latina, terra de índios e tesouros perdidos.
            Seu pescoço fino, entrou nas jóias mais valiosas que se possa imaginar. Suas  roupas atraentes vestidas para serem vistas, um desfile de moda para sua pessoa vaidosa ser o destaque da festa. Nem lembrou daquele pavor da noite anterior. A  luz de uma conquista estava as portas, seu coração começou bater acelerado quando avistou de longe um monte.      Aquela semana era páscoa. Lusa expressou entusiasmada:
            ─ Monte Pascoal!
            Num vislumbre via a beleza, contornos amarronzados descendo monte abaixo. Lentamente disparou o coração da moça. Estava decidida  a ser amada, tocada e beijada.  Seus olhos não piscavam quando via o inimaginável Brasil. O galã cobiçado pelas  princesas européias  bem a sua frente. 
            Após alguns minutos Ajadja refrescou seus pensamentos e eu o interrompi:
            ─ E o amor já começou fervente entre Lusa e Brasil?                                                       
            ─ Oh... boa é a pergunta, ótima é a resposta. Celebraram na primeira missa o casamento de Brasil. Amor  à  primeira vista, acredita nisso?!
            ─ Oh, sim. Há coisas difíceis e coisas fáceis de se acreditar. Entre  uma e outra, essa é difícil. Porém,  não é impossível. Se existe Deus, tudo pode suceder, para nós não sermos tidos por inocentes. A realidade consiste em mostrar-nos o início do reino no meio de nós. Nessa terra, Deus começa estampar sua glória, e ela brilhará noutra dimensão, onde todos querem uma pausa para descanso e gozo eterno.
            ─ Bravo! Muito bem! ─ elogiou-me Ajadja, por minha clareza de expressão.
            Logo me interrompeu, quando tinha outras razões para fluir, como uma cachoeira liberando suas torrentes cristalinas da montanha para o deserto na frente de um forasteiro perdido nas areias quentes debaixo de um sol escaldante.
            ─ Tu és cristão?
            ─ O quê?
            ─ Tu és cristão, crente?
            Deixou-me engasgado e confuso...
            ─ Aonde o senhor quer chegar com isso, Ajadja? Que diferença faz?
            ─ Ser e não ser cristão hoje é muito comum! Ó, filho meu! Muito grande é a separação do ser do não ser; quilômetros de distância está uma coisa da outra. Até  mesmo tão perto uma da outra, como Deus de nós, como dizem os cristãos. Ele está longe, e ao mesmo tempo mais próximo que o ar  respirado por nós, não é assim? ─ disse-me o convicto Ajadja.
            Interroguei-lhe:
            ─ O que é, e não é hoje? Se uma árvore tem duzentos frutos, um está estragado,  ela é? Se uma árvore tem trezentos frutos, uma está bom, ela  é ou não é? Qual o nosso padrão de julgar o que é e não é?
            ─ O fruto! Não é a árvore! ─ respondeu-me Ajadja.
            ─ É! É! O senhor está certo!
            ─ O que é crente para o senhor?
            ─ Menino, não me provoque!  O fruto é claro! ─ concluiu Ajadja. ─ Não estou forçando argumentos, mas qual sua visão de cristãos, meu jovem cavalheiro?
            ─ Quem te disse que eu tenho uma visão deles?
            ─ Uai!!! Muito lindo, né!.. como me perguntas sobre um nome de uma pessoa, se não sabe, se ela realmente existe? 
            ─ Não teria sentido nenhum eu falar disso, Ajadja. Nosso interesse por uma questão, mostra o quanto queremos aprender mais sobre ela. O  tolo pesquisa e diz: “não existe”. Ele ignora, pois não conseguiu uma resposta. Empilha um monte de argumentos contra, quando só precisa colocar a limpo com as palavras, não sei se sim, não sei se não. Nem  tudo nesta vida obtemos respostas, entre ateísmo e  teísmo a segunda é  mais segura, o lucro é mais certo.  Não  posso ignorar irracionalmente verdades tão estupendas poetizadas, tais como  viva a vida e deixe a vida ser vivida. Isso até  onde ela bem quiser? Tu não podes afirmar se ela não vai no além, por que tu não sabes se ele existe. Se o teu desejo é a vida mesmo, como a defendes, defenda o além, pois ele não nega a própria vida. Quando tu o negas, estás dizendo não à mesma.   
            ─Qual a escola onde estudastes?
            ─Ah, não, meu Deus!  Tu querias saber se eu era cristão, agora quer saber sobre a minha escola? Por que me interrogas tanto, Ajadja?
            ─ Qual das duas respostas é mais essencial? ─ perguntou-me Ajadja.
            ─ Ah, o que é essencial nessa vida, senhor? O que acrescentará ao homem a escola onde ele estudou?
            ─ Eis a grande questão, muitos não estudaram em escola alguma e governam cidades e nações. Governar ou ser político seria uma arte? Agora, esses charlatões da politicagem vêm nos ensinar a roubar as pessoas. Para fazer ensinar nosso idioma ou nosso passado se faz até pós-graduação em exigências acadêmicas, isso para ser mais perito no assunto, mas para administrar a nação pode ser qualquer troglodita mesquinho, essas sanguessugas malditas. São os ratos de congressos e usurpadores inescrupulosos sem consciência ou compaixão pelo povo. Conhecimento sobre a arte pode ser o meio de eliminação de corruptos aproveitadores das ocasiões, eles meterem o focinho onde não entendem nada. Talvez esse seja o erro maior da humanidade, pois ela continua com os modelos bárbaros de política, onde muitos conquistam seus tronos à base de mentiras, da força ou de persuasão. Por isso, temos visto um laboratório de lunáticos pelo poder. Homens com caráter corrompido deveriam aprender com os mestres da “arte do pão e circo”. Muitos entram nesse caminho pelo carisma, outros por terem dinheiro ou sangue aristocrata. Se para qualquer profissão, hoje, precisa se graduar, até mesmo para plantar banana e cozinhar (não estou dizendo ser isso coisa inferior), por que não exigirmos curso universitário para seguir carreira política?
            ─ Puxa! Tu tens uma língua como uma navalha! Mas só após o senhor terminar o sermão do casamento de Brasil com Lusa, a burguesa de nariz empinado, eu respondo às perguntas. Diga-me, Ajadja, o que virou esse casamento?  Teve festa e missa na beira da praia? Muito churrasco? Muita bebida?  Muita dança? Carnaval? Samba? Brigas e mortes?
─Voltando pela mesma estrada, prosseguindo em direção ao fim da conversa, os rastos de outro papo ficam para trás, depois volto para recomeçá-lo... Declamarei a ti em versos:  
Oh, Brasil...
Brasil! Brasil! Meu Amigo, nunca vi outro igual a ti!
No seu casamento, prazer, carnaval,
Churrasco de animais em extinção.
Brasil, tu eras valente caçador!
Nas brasas vivas, assavas animais deliciosos.
Bebida te embriagava, cachaça do canavial.
Brigas e mortes ocorreram no decorrer.
Samba, Brasil! Tu és escravo livre!
Teu corpo é solto para dançar!
Tua pobre mente presa para te enganar.
As chaves da prisão estão em tuas mãos.
As portas abertas a tua frente.
Só que tens medo da escuridão lá fora.
Na cadeia tem alimentos, no campo trabalho.
Ó, mentalidade passiva!
Um grito não trouxe liberdade!
Tu não foste educado, és um selvagem.
Mostras teu corpo lindo pelas ruas das cidades.
Mexes com as cabeças das moças das vilas.
Plantador de café, onde está tua princesa?
Ajadja denuncia sua fraqueza fatal!
Tu tens corpo, tu tens dança, samba e carnaval.
Tu és guiado pelo corpo, e não pela razão, quem deras fosses.
Não serias humilhado por uma vulgar qualquer
Prostituta amante de inglês, adúltera vagabunda da Europa!
Tu não tens orgulho de ti mesmo...
Morenão, mameluco usado e descartado
Laves tua cara, tenhas vergonha nela
Ergas tua cabeça pensando com ela
Uses o que Deus te deu por herança.
Cuidado com as mulheres exploradoras...
Meretrizes dos palácios reais!
Prefira antes as pobres, pelo menos gastarás menos nos motéis luxuosos...
Deixa de ser tolo! Seus filhos passam necessidade em casa.
Tu és pai solteiro, não tens seios que amamentam.
Ajadja conhece tua vida triste e sofrida.

O senhor, emocionado, retirou um lenço azul desbotado do bolso e continuou:
─ Amado, tu saberás tudo nos detalhes sobre a frustração de Brasil, pois outrora tinha tudo para ser um homem feliz.  Infelizmente, se deu mal no decorrer da vida. Uma desgraça, uma tragédia, um desastre, Brasil esfrangalhou-se. Foi a drástica amargura e amarga até o presente. Essa doença  o mata desde seu casamento. Não! Não é uma doença venérea, é a morte dos extintos de um homem. Não presta para quase mais nada. Tornou-se um inútil, inválido, verme de lixo. Quando ela pisou seus pés no solo nacional, começou a desfilar exuberante no meio da mata de pau Brasil. Com aqueles tamancos de salto alto, Luiz XV, de batom vermelho na boca, joias rutilantes no pescoço, aquele olhar ambicioso de conquista abalou o coração do galã Brasil. Ele ficou hipnotizado, como quem via um anjo de luz. Vibrado de paixão à primeira vista, tanto que nem piscaram as meninas dos seus olhos.  Elas resplandeciam como um espelho exposto aos raios ultravioletas do sol do meio-dia. O vento fresco batia no seu peito moreno e era o mesmo que fazia aqueles cabelos louros avermelhados dar um show de baile. O exalar do perfume importado, entrava em suas narinas inspirando o cheiro de “Eu te quero. Venha para mim, linda portuguesa!”. Mudo! Mudo! Não despregou a língua de sua boca! Suas pernas tremiam como vara verde, seu coração acelerado batia estrondosamente como um trovão. A impressão era como se todo continente americano estivesse sendo estremecido por um terremoto. Batidas de um coração apaixonado, pronto para se entregar de uma vez por todas. Tu já vistes um moreno pálido? 
─ É, Ajadja... Isso já sim!
─ Brasil extasiado por uma luxuosa filha de um rei de Portugal. Não houve ação dele, nem reação dela. Pela primeira vez essa lei falhou... essas sensações aconteceram no dia que a viu pela primeira vez daquele jeito ...
─ Onde foi a segunda, Ajadja?  Indaguei-o.
─ Depois de desvendar os mistérios da primeira, quem sabe fale dos segundos acontecimentos. Vamos devagar... te revelo tudo, ponto por ponto, tenha paciência! Assim foi com Brasil, com a rosa de Lisboa, não foi um outro conto de fada sonhadora, daqueles de moças desesperadas investindo tudo de corpo e alma, em prol de um príncipe encantado. Quando a embarcação parou, na beira da praia de Porto Seguro, empolgadamente, a Lisboana gritou alto: “ É ele! É Ele!”. Todos assustados não entenderam nada. Quem via além dela? Só ela mesmo, pois veio com esse intuito! Descia do monte Pascal, marrom, marrom, moreno... branco apenas um colar de dentes de animais no pescoço. Músculos desejosos daquela mulher fina. Ela se lançou a correr como quem tira um arranque no início da corrida de São Silvestre, ou nos duzentos metros rasos das olimpíadas. Como dizia Salomão, homem de 900 mulheres, rei de Israel, filho de Davi, “Coisa louca é mulher apaixonada, não sabe coisa nenhuma”. E se ele fosse um índio assassino com uma lança na mão? Um  lunático passado do juízo revoltado com tudo e todos? Ou um guerreiro, defensor de sua pátria cheio de ódio pelos estrangeiros exploradores de suas terras? Ela não seria devorada? Não morreria num lugar estranho? Mas não! Seu coração não queria nem duvidar do sentimento por um segundo. Nada poderia detê-la. Só uma flecha venenosa, cravada sem misericórdia. Medo nenhum mais a dominava, nessa altura dos acontecimentos. De repente, parou o carro de fórmula um. Voava a 290 quilômetros por hora, a apenas uma curta distância de uns seis metros. Com olhar como raios reluzentes batiam nas profundezas de outro olhar. Um vulto resplandecia na pequena campina verde, coberta de sereno. Ela começou tremer como vara verde. O vento fresco batia nos seus cabelos louros avermelhados, e os fazia dar um show.  Aquele ser de corpo musculoso, fez seu coração estremecer, acelerou tão forte lá dentro, ao ponto de ser como um terremoto estremecendo toda América Latina de um extremo ao outro. O cheiro de seu corpo de perfume importado penetrava naquelas narinas. Tu já vistes uma branca ficar da cor de maçã e tremer dos pés a cabeça? Estava fixa naquela face, não sei se extasiada. Deu um grito altíssimo: “Brasillllsilllsilll!!! Não, me...” Não conseguiu terminar o que ia dizer, pois em segundos caiu desmaiada no chão. Na sua frente, uma pantera negra, da cor de um demônio do inferno. Seus  olhos eram tão vermelhos e malignos. Coisa comparada a satanás quando vê a cruz e o sangue de Jesus Cristo aspergido. Arregaçou suas unhas negras, afiadas como um punhal enferrujado, pronto para sangrar. Deu três passos em direção da Dama de vermelho, adornada das mais maravilhosas pedras preciosas. Ganhara nas datas importantes nas festas comemorativas palacianas, recebendo de pretendentes e familiares. Aquela fera negra, não sei se estava faminta, mas era maligna no ataque como espírito capa-preta das trevas. Pulou raivosamente babando uma saliva amarela como baba de quiabo, essa coisa nojenta caia de sua boca formando uma espécie de barbatana. Seu satânico golpe foi direcionado ao pescoço da jovem mulher. A moça estava com um colar com uma pedra de diamante raro. Recebeu o presente no seu aniversário de quinze anos. Essa joia foi a esperança de conquista de um príncipe inglês, pois ela a deu como prova do seu amor. Esse varão muito se engraçou por ela. Á partir daquela noite de comemoração desta data especial realizada na corte da Inglaterra. Todos os convidados eram da alta sociedade. Quase ninguém sabe muito, como foi pintada a tela do quadro dela com esse cavaleiro de raça nobre inglesa.  
Ajadja é um das poucas testemunhas investigadoras dos seus encontros amorosos. Façanhas nas noites de lua cheia e céu estrelado dos castelos e campos do velho continente.        
            ─ Um rosnado amedrontador assustou pássaros e animais. Eles estavam próximos do local do golpe mortal. A pancada violenta fez a vítima cair morta, trêmula, totalmente dura como uma pedra. ─ seguiu Ajadja. ─ Sangue foi aspergido nas folhagens de capim seco, e nas pequenas árvores verdes que faziam da campina um estupendo paraíso, como as cidades de Sodoma e Gomorra, antes de serem destruídas com fogo e enxofre pelo braço poderoso do Senhor dos exércitos.  O Sangue carmesim descia folhas a baixo. Respingava dentro do riacho, criando uma pequena “nuvem vermelha” nas águas. Isso formava um cardume de lambaris, e as piabas eram estraçalhados pelas piranhas atraídas pelo escarlate. Um silêncio pairava na floresta, barulho nenhum... Com exceção de alguns quero-queros. Essas aves cantavam tão longe, mas pensava-se que estavam nas profundezas da terra. Na verdade, o golpe acertou no meio da testa, fazendo uma rachadura profunda. O sangue escorria... Continuamente jorrando, como a pequena nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra. Logo, vai virando um mundaréu de águas descendo as montanhas. Ela gemia baixinho, quase não se escutava. Claro! Ela morreu. Não teve jeito, pois não se escapava de um golpe perfeito desse.
            ─ Oh! Santo Deus!! ─ exclamei entusiasmado e assustado.─ Oh, AjaAdjA...jaaadja! Mas , mas o senhorrr! E o casamento? E o amor? Ela morreu? Veio outra irmã dela no navio? E Brasil na frente dela? Trêmulo, extasiado olhando nos seus olhos com o coração acelerado? Agora morta! Morta! Morta!
            ─ Filho, acalme-se! Histórias românticas, também têm mortes trágicas. Um  coração pode parar de bater, mas não põe fim àquele que continua batendo, em busca de um grande amor. 
            ─ Cê quer dizer... então Lusa tinha uma irmã gêmea?
            ─ Que ela morreu... ─ disse ele sorrindo ─... não restam dúvidas. 
            Ao afirmar isso o velho me deixou perplexo.
            ─ Me dê um intervalo. Já volto e te surpreendo!
            Apanhou Ajadja um copo de suco de maracujá e me deu. Ele colocou uma pulga atrás de minha orelha...

































CAPÍTULO IV

REENCARNAÇÃO DEPOIS DE PASSAR PELO PUGATÓRIO DE BRASIL?


        Continuava estilhaçado no solo, aquele corpo bronzeado de loura sedutora. Braços morenos com músculos desenhadamente contornados a segurava apertadamente. Ele Sorria para não chorar. Seus dentes eram alvos como a mais pura nuvem branca que passeava nos céus daquela manhã de um dia resplandecente. Dia de medos e tensão de nervos à flor da pele. Imagine o índio rezando uma ladainha, uma prece aos deuses das florestas virgens, catacumbas antes desconhecidas dos civilizados.  Era Brasil, tentava a respiração boca a boca. Aquecia o corpo dela com o seu. Tocava carinhosamente seu rosto de pele rosada com suas mãos lisas.  Nada  adiantava. Seu  corpo moreno bronzeado, molhado de suor escorria respingando sobre o dela. Caía como chuvisco sobre aquela mulher de exuberância acima dos padrões de beleza da época. Invejada de reis e rainhas das nações europeias, mas nada poderia fazer por ela.    
            Do outro lado, aquele animal negro, com a boca sangrando, sangue escorria das suas garras e de entre seus dentes. Sangue saía por sua narinas, sua boca entreaberta permitia ver  com clareza seus dentes. Dava medo, mas não tinha porque tê-lo. A  perigosa pantera negra surgiu para frustrar o filme do romance de Brasil com a portuguesa, mas foi ferida com um golpe mortal. Uma  machadada no meio da testa.  Brasil estava sobre um pé da árvore sucupira, observando a moça correndo em sua direção, quando de repente, o monstro a paralisou. E viu quando ela voou contra o pescoço de Lusa, no  instante ela procurava por Brasil, como o garimpeiro procura o diamante na mina. Ele atirou uma machadinha de cima da árvore, na velocidade de uma bala de revólver. Seu  endereço foi a testa de ferro do animal negro. Sem chances a fera caiu dura no chão. A gravidade em seguida era a garota.
            Quem Brasil apelaria para Salvação da moça? Os seus pobres deuses não cuidavam nem de si mesmos, quanto mais ressuscitar uma morta, pensava consigo mesmo... Como clamar por quem disse: “Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá, e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. Crês tu isso?” (João 11-22-23).
            Missionários não haviam pregado o evangelho por aqui. Então as coisas eram dominadas por deuses pagãos. Eles nada podiam fazer... Curupira, protetor das matas, um menino de cabelos vermelhos e pés voltados para trás. Se  não estou enganado,  nunca protegeu nem seu nariz catarrento, cogite florestas!
            Não  temos quase mais nada de florestas por aqui. Carvão virou dólar.
            Saci-pererê... um molequinho preto, com um cachimbo na boca. Ele só poderia está fumando maconha. O  fumo mais natural aqui, creio ser ele, quem ensinou Brasil fumar essa porcaria de droga. Também outros deuses das crenças do povos ancestrais indígenas desapareceram no tempo.  
            E agora Brasil? Em quem confiar? “uns confiam em carros, e outros em cavalos,  mas nós faremos menção do nome do SENHOR, nosso Deus” (sl-20-7). Essas frases estavam longe do alcance de Brasil. Como  estão de muitos até hoje.  Nos momentos de aflição, esses não sabem onde achar uma rocha forte para confiarem.  
      Como via Lusa em sono de morte e ela não acordava, nem respirava, não piscava e nem dava um berro. Levantou-a com todo cuidado, colocou-a nos braços, subiu  montanha e desceu vales para levá-la a uma pequena cabana de folhas de coqueiro. Muitas dessas cabanas eram encontradas por aquela região do estado da Bahia. Todas as vezes que enfrentava circunstâncias difíceis, ia para sua cabana favorita. Era  um lugar muito fresco com uma Gameleira. Dessa árvore sai um leite colento, quando cortamos superficialmente sua casca.
            O que cogitava em mente aquele moço valente? Estava decidido trazer de volta aquela alma, para dentro daquele corpo. Ela se tornaria o grande amor de sua vida?
            Lutou! Lutou! por um momento se cansou, e seus deuses mudos, surdos e cegos não se manifestaram.
            Sua tribo tinha o costume de cortar quatro ganchos de árvores verdes, bem grossos e muitas varas verdes de grossura ideal, e faziam uma espécie de jirau de varas. Uma  cama para melhor especificar, com um espaço de dois a três dedos um do outro. Colocavam  sobre ela a pessoa e a declaravam morta. Um  monte de lenha seca era colocado debaixo da cama. Amarravam o corpo com cordas silvestres, depois acendiam o fogo, e começavam a clamar pelos espíritos ancestrais. Pediam a devolução  da alma daquela pessoa noutro corpo, para realizar os desejos de um amor interrompido por um deus mau.  Diziam ser o nome desse deus Arimã, ele  odeia o amor entre humanos. Eles   acreditavam que esse deus, o príncipe das trevas, era quem lutava contra a felicidade das pessoas com caminhos cruzados. 
            Foi essa a ideia lunática de Brasil para tentar a volta da linda princesa, clamou, clamou, clamou... Acendeu o fogo, as chamas começaram a subir rapidamente, pois as  roupas antigas eram feitas com grande quantidade de pano.  Na  Europa mais ainda, por ser região fria e de neve.
            Um cheiro de cabelo queimado, misturado com uma fumaça branca, chegava as suas narinas. Os  cabelos louros longos caiam pelos buracos do jirau de madeiras verdes. Também  o tecido do vestido vermelho com seus babados. Brasil tirou as joias, um cordão de ouro com uma moeda com uma esfinge escrito “Dom Pedro I” e as colocou em um vaso de barro. Logo  após o corpo virar cinzas, sua tribo tinha o costume de colocá-las num vaso desse, com as pedras preciosas e seus adereços, depois fechavam sua tampa com cola da gameleira e lançava-o nas águas correntes do rio São Francisco.
            Para eles, essa alma precisaria dos seus pertences, para custear as despesas de uma longa viagem.  Depois  de chegar lá, se sobrasse valores poderia voltar,  para encarnar outro corpo pronto, para gozar o amor não vivido aqui, por causa de uma interrupção do destino mau.
            ─ Louco Brasil de Crenças estranhas! Não entendo isso! ─ horrorizado exclamei ─         Veja  o misticismo estranho, sincretismo religioso duvidoso, parece um pouco com os pensamentos concebidos pelos gregos. Sobre  imortalidade da alma! Processo filosófico desencadeado por extremistas fanáticos de grupos orientais. Em suas doutrinas o corpo para nada presta. A alma existiu num estado anterior, e  ainda questões tolas de nirvana. Eles  tiram a responsabilidade do homem para com sua existência aqui agora, para alcançar um estado de perfeição em outro lugar! Isso é palha seca, uma  burrice lógica sistematizada. Isso  distorce até uma mente lúcida, mas não passa de uma febril mentira. Quando o homem morre, a declaração bíblica que ficou para ele é “ E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a terra e amanhã: o dia sexto” (Gn 1-31).   A matéria não é ruim, e a morte e alma, no conceito do Deus cristão, não é como muitos grupos por aí ensinam...     
“E, como aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo, depois disso, o juízo” (hebreus 9-27). As escrituras sagradas condenam o pensamento confuso de Brasil radicalmente.“do pó veio o homem. E ao pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.” (Eclesiastes 12-7). O Deus cristão desaprova essa prática confusa,  muito poética e romântica é  a atitude intelectual de Brasil. Na  loucura, os homens inventam até um deus, para se livrarem das dores. É como Moisés disse em  Deuteronômio 18-10:
            “Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador,  nem agoureiro, nem feiticeiro, e nem encantador de encantamentos, nem quem consulte um espírito adivinhante, nem mágico, nem quem consulte os mortos, pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por essas abominações o SENHOR, teu Deus, as lança fora de ti.”
            Oh, quando Brasil meditava nessas abominações, um grito: 
            ─ Socorro! Socorro! Me tire daqui! Estou me queimando! Estou me queimando!.. Sou uma realeza! Ai, meu Deus... ajuda-me!
            Brasil se levantou correndo como um touro selvagem. Apanhou sua machadinha  na mão direita, levantou-a com toda força, mirando as cordas que viraram picadinho. A portuguesa, com vestidos e cabelos pegando fogo, foi arremessada no meio do rio. Aquele  corpo quente se esfriou em questão de segundos. Outro mal pior, ela começou a se afogar, e não sabia nadar. O rio era fundo, e com veloz água corrente, que começou arrastá-la.
            Brasil em estado de choque com a situação, pulou dentro d’água. A moça desceu, desceu... chegando a uma cachoeira de uns dez metros, com pedras pontiagudas lá embaixo.             A  moça ficou presa em cordas de plantas naturais das águas, quando Brasil a estendeu a mão. Ela escorregou e caiu cachoeira a baixo, no meio do pedregulho, coberto com um lodo verde enegrecido.
            Ele segurou numa corda como Tarzan, pulou nas pedras onde estava a moça. A velocidade e impacto do pulo foi muito grande. Ele escorregou no lodo, maior foi a sua queda. Bateu  as costas em uma rocha dura, desmaiou encostado nela.
            Estavam os dois corpos às margens de um rio de águas cristalinas. As  águas batiam nas rochas duras e as furavam, respingando gotas geladas sobre os dois.
            No navio, a conversa era a respeito daquela que saiu louca selva a dentro e desapareceu. Onde estará ela? Uma fera a devorou? Todos pensaram, pois viram sangue no capim e nas árvores. A  pantera não estava mais por ali, porque outros animais carnívoros a tinham feito café de manhã mato a dentro.
            ─ Ajadja, morreram os dois? Que história louca! Meu Deus! Diga-me.
            ─ Ilustre jovem, eu vou dizer, mas antes  quero as respostas das duas perguntas...            ─ Ajadja, você não esquece de nada.
            ─ Querido, posso ser velho como tu me vês, porém, minha mente é jovem. O importante é isso. Os idosos avivados com a mentalidade de jovens e os jovens mentalidade de velhos, assim o mundo será nosso.
            ─ Quais as respostas, Ajadja?
            ─ Ah não, já esquecestes? Se tu és cristão? Em qual escola tu estudaste? ─ falou o velho sorrindo.









CAPÍTULO V

ONDE FORAM PARAR OS PERSONAGENS DE AJADJA ?


            ─Sim! Oh, sim, Ajadja! Venceste-me dessa vez. Mas quero ver depois das respostas, onde foram parar os seus personagens. Se eu for cristão, mudará a história? Se minha escola for uma pública, mudará a erudição em que me contas a história para algo menos eloqüente e intelectual? 
            ─ Oh, não. É apenas em razão de  eu ser cristão e vejo em ti os mesmos princípios. As vantagens e desvantagens eu também tenho, isso é algo em comum. Tu és um homem erudito, filho. Tu não és muito conhecido no mundo literário hodierno devido a forma e valores éticos das questões elaboradas por ti. As pessoas não querem ser ajudadas, elas querem apenas auto-ajuda. Elas buscam apenas um alívio momentâneo no teatro e cinema da vida. O cristianismo se tornou em um conjunto de regras nulas e vulgares a cultura e as potencialidades criativas do ser humano. Na verdade, deveria ser uma religião constituída de valores sagrados para a liberdade existencial como era na concepção de Jesus Cristo. O místico catolicismo dogmático e os protestantes com seu radicalismo fanático e a pobre posteridade evangélica com olhos ambiciosos nas moedas dos bolsos dos fiéis têm apodrecido mais o tecido outrora nobre. Posso afirmar sem dúvidas no espírito ou pretensões heréticas sobre grupos dessa religião ainda seguindo, como discípulos fiéis, os  valores do mestre. Nos idos atuais, as pessoas os veem como um radicalismo anti-vida. Para muitos sem conhecimento dos valores intrínsecos desses grupos, pensam com presunção que viver dessa forma é negar a própria vida.
            ─ Bem, Ajadja, eu sou cristão. Refinando mais o cardápio, sou poeta e muitos me chamam de homem louco. 
            ─  Vire e os diga: me chamam de louco, porque nunca viram um certo que não seja louco! ─ atalhou Ajadja ─ A  grande mentira deles e falácia é que o crente nega a vida!“Se põe a esperança da vida, não na própria vida, mas em outra vida, ou seja, no além, se nega a própria vida” disse-me isso um inimigo de si mesmo, chamado Nietzsche... Oh, insensato!  Levantemo-nos e construamos um mundo melhor, aqui se faz, e se paga pelos atos. Por aqui se vive nessa terra, depois morremos e não sabemos o que virá. Se tu viajas para lugares de frio zero, tu serás condenado a morrer congelado.  Se  não acreditas e nem sabes se o lugar para onde vais é mesmo frio, e viajas sem agasalhos adequados... sua condenação à morte será justa! Um princípio universal é o direito à vida, à vida em si mesmo. Quem não ingere álcool, cocaína, drogas em geral, pratica sexo livre, é contra o assassinato, homicídio e corrupção está contra a vida? Eu não aceito argumentos bizarros. Eles vão contra a verdade, que produz em mim o princípio universal mais importante. A vida em si mesmo. O ponto crucial para achar o sentido para vida é a descoberta de nosso propósito existencial. Vivemos na sociedade do desespero, do abandono e materialismo que escraviza nossa paz de espírito. Em meio a tantas conturbações que geram confusões para formação de nossa identidade pessoal, as pessoas estão cada vez mais distantes de sua razão existencial. Com isso, torna-se alarmante o número de indivíduos se consumindo nas drogas e na estupidez de muitos vícios sociais para afogar as dores que ocultam o sujeito que nunca conseguiram ser. A resposta para superação do ser humano fracassado vem justamente encontrando um sentido para sua vida. Mesmo que a pós-modernidade cobre de nós uma alternatividade que não podemos cumprir, precisamos nos auto conhecer e também focalizar nossos desejos e vontades em Deus. Uma coisa precisa ficar clara: nós não somos o centro da gravidade da vida, esse é o primeiro ponto de partida para as transformações interiores. Após sabermos que a vida tem sentido em si mesma e que nós não somos o centro dela, mas apenas participamos do conjunto que a compõe, já estamos abrindo a primeira porta para fecharmos o vazio que devora nossa alma. Estejamos dispostos a sair desse quebra-cabeça mesquinho que fez a existência se tornar insuportável nesse planeta e construamos perspectivas de vida mais simples. Toda essa bagagem de exigências e experiências nos têm ensinado que não estamos no caminho certo. Nós precisamos de mudanças, o planeta como sempre anda preocupado, confuso e sem respostas para sair da teia tecida por sua própria ganância mentecapta. Ao mesmo tempo somos indivíduos únicos na esfera bio-pisco-social-espiritual, tudo enfrentado por cada um, em si mesmo é particular. É a dor de cada um, ninguém poderá superar essa dor por nós. O segredo é fazer dessa dor superação; a força para viver deve ser forjada nela, não fazemos dela uma veia de escape para os consultórios a procura dos anti-depressivos. A vida com a dor e sofrimento é uma vida em si mesmo, o sentido dela está em razão dela ser vida, não em questões que foram imaginadas ao longo dos anos pelos padrões sociais. Hoje a nossa vida se intoxicou com as coisas, sem o carro, a casa e alguns bens de consumo ela se torna uma mazela. Aqui achamos o grande equívoco destruidor do sentido da vida de muitas pessoas, porém irei adverti-lo; a vida é uma via de mão única. Não é um labirinto de incertezas, pois independente de como for manobrada, continuará sendo vida, mesmo que seu portador não encontre seu sentido. Mas para gozarmos seu bem maior, acertarmos o alvo de seu realismo, é só ligarmos os botões de seus fundamentados sólidos, tais como o amor a nossa existência e valorizar a nossa vida em si mesma. Olhar todas as criações que a envolvem em beleza única,termos ciência disso e apreciarmos as coisas existentes por causa de nós. Assumir nosso status de filósofos  desse cosmos desconhecido é imprescindível. Somos senhores de nossas decisões desastrosas da  história que pouco nos ensinou. Esse verme pós-moderno precisa aprender diariamente expor as coisas que idealiza, mas não pensar que as pessoas são obrigadas a aceitá-las, pois   podem se tornar reféns das parafernálias ideológicas criadoras sistemas esquizofrênicos. Às vezes, estamos totalmente amarrotados por dentro, mas as apresentações verbais de nossas palavras estão ornamentadas, isso é o mal de todo homem e mulher. Nunca fuja da transparência, se as coisas não estão bem, não existe nenhum motivo para exaltar seu estilo de viver, seu propósito  é ser original. Se você se engasgou, procure ajuda em outro ser humano mais experimentado. Quero ser franco, quero ser quem sou. Minha natureza é espiritual, os anseios mais profundos clamam por mais vida. Ninguém morre sorrindo e dizendo “Tudo acabou!” Mesmo que  diga “Não é  assim”, a própria vida quer continuar vivendo...
            ─ Senhor Ajadja, a escola onde estudei no passado era uma, a atual é universidade. Na primeira, convivia com as crianças do jardim e do primário, ginásio...  não sei mais seu nome. Nela aprendi que dois mais dois é quatro e três vezes nove é igual a vinte e sete. Em outra ciência aprendi que os humanos vieram de macacos e a respeito da evolução das espécies, e o planeta terra, as estrelas e todas as galáxias vieram da explosão casual do Bing... até hoje os macacos não cantam canções. Na universidade adulta aprendi ir além de dois mais dois, e três vezes sete, e não consegui realmente explicar o que é uma espécie. Não sou um conformado, sou complemente inconformado, e sou assim complexo, sou minha própria arte. Não uso nem dez porcento de minha capacidade, sou um verme!  Esse mundo precisa arrancar essa mentalidade de macaco. Se  rebaixa de um indivíduo criado a imagem  e semelhança de Deus, para um criado a imagem de macaco. Isso  tira deles a responsabilidade de assumir seus atos, e é isso seu querer. Mas isso não terão, porque  de qualquer jeito, um dia vão ter que assumir suas irresponsabilidades, aqui neste lugar, pois imaginam abandonados por um deus esquecido.  Ajadja, “porque, em parte, conhecemos e, em parte, falamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque, agora, vemos por espelho em enigma;  mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido.” É o amadurecimento de quem não anda todavia nas barras da saia da mãe e começa pensar por si mesmo. Uma  necessidade urgente é que nesta pátria se crie cidadãos que “Ajam, Djam” assim, para um povo, não pensar que um homem liberta uma nação. Mas , o povo liberta a si mesmo gritando juntos “ independência ou morte.” Quem me dera, tivesse um livro desse, Ajadja, na estante e na casa de cada cidadão desesperado para construir uma nação livre. Valores e normas decadentes necessitam da mesma sorte dos sepultados. Inumeráveis números de nossos museus ideológicos necessitam de fogo, e muitas estruturas podres de nossa cultura. Existe praga no campo da arte, política, ciência, educação, literatura e filosofia, e precisam de fogo . Se tradição fosse liberdade, não teríamos uma multidão de escravos soltos pelas ruas. Brasil! Vamos rever esse negócio de independência?  É uma horta que não é nossa. Não se encaixa nos moldes de nosso país, e não existem gafanhotos por aqui? Qual a razão do medo do novo? Doa  a quem doer. Melhor a dor da operação do que a dor da doença. Ela  não tem cura há mais de quinhentos anos.
            ─ Poupe-me, por favor. ─ exultou Ajadja ─ Imprimamos pela educação da mente o papel de liberdade, não a tradição falsa do “ouviram do Ipiranga as margens plácidas.”         Topei Ajadja com uma folha de papel escrito “Novo hino nacional”.
            ─ O “ouviram do Ipiranga as margens plácidas” foi esquecido ─ ele me disse.
            ─ E daí? Isso te ofende? Onde está teu patriotismo? Tu não defendes nada puramente nosso? Não se orgulha de nossa libertação, se orgulhará quando vir nossa liberdade. Se ele se gabar de alguma coisa como brasileiro, sai batendo no peito, e dizendo aos estrangeiros “Nossa seleção de futebol é a melhor do mundo!” Camisa e bandeira ainda nos restam! Sua fama se consiste em ser brasileira, sem nenhum francês. Isso constrói uma raça, não uma salada sem voz ativa. Ela  veio das várias tribos, mas sua honra é ser brasileira. Defender o que a faz única. Não  abaixe a cabeça para os poderosos, eles  julgam poder tomar seu lugar.
            Empolgado, Ajadja quase bate palmas para mim, depois desse chavão.      
            ─ É Contigo agora, amigo. Dei minhas duas respostas às duas perguntas que me fizestes!
            ─ Sim! Sim! Voltarei a história de Brasil e a portuguesa vulgar... 
            … meu amigo Brasil tinha identidade, era um selvagem, mas tinha orgulho de quem era. Depois daquela queda nas pedras, para salvar aquela garota, não sabemos a parafernália acontecida em sua memória. E sua comunicação Guarani?  Os seus dialetos? Como ficou a memória de Brasil? 









CAPÍTULO VI


BRASIL PERDE A MEMÓRIA E SUA COMUNICAÇÃO NATIVA E É EDUCADO PARA SER UM HOMEM NOS MOLDES DA PRINCESA

            Quando os raios ultravioletas começaram a queimar a pele branca da jovem, que já estava rosada, pois reagia seu corpo. Apresentava alguns movimentos lentos, com gemidos de profunda dor. Se não foi Deus, não sei mais quem era, mas aconteceu um milagre. Ela apenas desmaiou. Quando abriu os olhos, um grito de socorro. Uma imensa cobra d’água, às margens do rio, enrolada ao corpo de um homem moreno. Era esse homem Brasil?   Claro, era ele, quem mais poderia ser. O que faria a moça?
            ─ Meu Deus! Me tire daqui! Meu Deus!
            Em um vislumbre ela viu algo brilhar. o que seria  aquilo?  
            Com muito medo e pressa se atirou sobre a machadinha que Brasil sempre carregava consigo. Avançou contra aquela cobra e  a cortou ao meio. Ambas as partes batiam de um lado para o outro, enquanto ala apertava e sacudia o corpo dele. Estava dolorido, pois a cobra enrolara, o deixando estendido à beira do rio.
            ─ Quem é esse  homi?
            Quase não aguentando falar. Estava fraca e faminta, pois a dois dias não comia nada. A moça indagava com voz em tom médio.
            Numa breve reflexão, um raio de luz penetrou sua alma, trazendo de volta sua memória:
            ─Brasil! Brasil! O amor homem de minha...
            Logo correu e o abraçou aquele corpo gelado.  E  Seu corpo estava quente, soado, devido ao sol quente.  O  seu suor respingava sobre a face morena de Brasil. 
            O que fazer? Para qual Deus ela  iria Clamar? Ela colocava sua boca com o hálito quente na boca dele. Com todo carinho do mundo suas mãos acariciavam aquele rosto mameluco empalidecido.
            Ela murmurava:
            ─ Santa não sei o nome... santa das dores acolá, santo protetor não sei das quantas, Santo Antônio casamenteiro! Não é esse que te pedi nas minhas rezas?
            Nada o fazia viver... subiu a moça num lugar alto para gritar por socorro. Avistou  uma cabana na sua frente.
            ─ É isso! Mora alguém ali!
            Andou ligeiro, Apressando-se para chegar rápido ao local, para pedir ajuda. Subiu  morros, desceu vales e chegou a cabana. Bateu Palmas:
            ─ Alguém em casa? ─ chamava batendo palmas ─ De casa!!
            Ninguém a ouvia.
            Entrou na cabana. Os ponteiros da imaginação dela indicavam a passagem de gente por ali naquele dia, quem seria? Os portugueses?
            Havia uma mesa de sucupira, cortada e lapidada com uma ferramenta de corte. Lusa relacionou aquilo ao machado, sobre a  mesa tinha um animal assado.
            ─ Oh! Sim! Deve ser do Brasil!
            Como ela sabia que aquele mancebo era mesmo o Brasil dos seus sonhos? O coração dela pressentia? Dizem que coração de mulher sente, quando o amor de sua vida está próximo, com certeza isso se deu no seu...
            Mais que depressa, Lusinha comeu um pedaço do assado, cortando-o com a machadinha que estava em suas mãos. Como abandoná-la, em meio a tanto perigo de uma selva brava?
            Tonificada novamente desceu correndo para trazer o corpo de Brasil para cabana. Ela o tinha colocado na sombra.  Segurou-o pelo meio, não sei de onde veio tanta força. Só pode suceder isso, creio eu, com mulher apaixonada. Arrastou  aquele peso até o aposento.  Cansada, o colocou na caminha de varas que o próprio Brasil fizera. Rezava, rezava... e nada adiantava.
            Quando veio em mente um texto. O Padre Thommas, um senhor piedoso, orava com a família real todos os domingos pela manhã  lia essa passagem das escrituras para Lusa.  E ele insistia que tirassem da sala de oração, todas  as imagens de escultura, pois conhecia a palavra de Deus e sabia que adorar imagens é  abominação.   
            Thommas lia com voz alta, e com muita autoridade o versículo de  Mateus 10-8  “curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes de graça daí.”
            Seu coração foi aquecido por essa passagem. A garota ergueu o braço direito e começou a orar para  que o poder de Deus se manifestasse por meio do nome de Jesus. De repente uma serpente venenosa saiu debaixo da cama e picou seu calcanhar. Ela apanhou a machadinha e despedaçou aquela maldita serpente venenosa com muita ira.
            A dor da picada fazia Lusa suar dos pés a cabeça. Sua vista começou a escurecer, e vinham visões na sua mente. Isso devido tanto delírio por causa do poder do veneno.
            A serpente que ela fizera picadinho, apareceu numa dessas visões dizendo “me matou, mas, também te matei. Sou a deusa desse país, ele é meu.  Brasil é meu também, e vou levá-lo.”
            ─  Mentira! Mentira! ─ a repreendeu a moça ─ Maldita és tu entre os animais que Deus fizera!
            A serpente enfureceu-se e disse: 
            ─   Te apareci uma vez, e vou aparecer para sempre nos sonhos de Brasil no futuro, pois sou Aparecida. Das águas me levantarão, como a besta do mar.
            ─ Sou Aparecida, eu não morro. Brasil me criava debaixo de sua cama, e tu me mataste, ele me adora e me adorará, pois sou a rainha dele. Tu não me roubarás esse privilégio, portuguesinha católica pé roxo, meu veneno a fez ficar dessa cor pálida. Tu sempre te recordarás de mim, e me temerás no teu coração.               
            A ameaçadora víbora diabólica evaporou-se e sumiu numa nuvem de fumaça cinzenta que saía do solo. 
            Enquanto a jovem chorava de tanto sofrimento, suas lágrimas caiam como borrifos de sua face. Em estado de fraqueza, tombou no chão, com a pele roxeando e gemendo com dor intensa.  Surgiu em seu espírito um galho de esperança. Lembrou-se das palavras do Padre Thommas. Vislumbrou em  sua mente outro versículo e o repetiu em voz alta:
            ─ “E estes sinais seguirão aos que crerem; em meu nome, expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão.”
            Depois ela gritou alto:
            ─ Eu creio Senhor Jesus!
            Em frações de segundos o veneno evaporou-se de seu corpo, e se pós de pé dizendo:      ─ Tu me levantastes do chão, ó Jesus Cristo, levante agora Brasil para mim, em teu nome!
            Pôs a mão direita sobre o coração dele e disse:
            ─  No nome de Jesus, morto viva!  
            Uma corrente elétrica se apoderou daquele cadáver que começou a se estremecer  todo e a tossir. Ele rolou da cama e caiu com a cara no pó da terra preta da cabana.  Enquanto isso a bela princesa sorria, quase não acreditando no que via.
            ─ Meu Deus! Jesus Cristo de Nazaré! Oh! O homem se levantou! Estava morto! Que Jesus poderoso!
            Meio abobado, Brasil dizia:
            ─ Quem sou eu? Quem sou eu?
            A pobre moça não entendia nada, pois não falava a língua nativa! Um olhava para o outro. Não havia comunicação nenhuma, o oposto se manifestou pela primeira vez, o que fazer naquela hora agora?
            Então riram, riam, riam, riam... até rolar pelo chão. A comunicação começou por gestos meio confusos. Mas a vontade de se conhecerem era tão grande, que a moça pronunciou a palavra “Brasil”. O rapaz balançou a cabeça e disse:
            ─  É, é, é isso... Brasil!
            Não compreendo. Brasil ficou tão estranho. O índio não falava mais com clareza nem seu guarani. Se tornou como um papagaio da mata Atlântica, repetia tudo que a portuguesa dizia, como um atoleimado. Como  pode isso suceder a um cabra macho do sertão de vegetação catinga do nordeste brasileiro?
            Dizia a moça:
            ─  Amado Brasil, eu te amo! Meu doce melzinho, quero ser sua esposa!
            Brasil tropeçava:
            ─ Amo, amo, amo, melz..
            Claro que ela sorria, com aquele lindo sorriso próspero de mulher rica, quando  vê o tesouro perdido do seu ser pronto para ser desfrutado como bem o quiser.
            A grande vontade dela se tornou real, não foi da forma que ela pensava, nem como ele jamais imaginou.  Por  um momento, Brasil não acreditava, sua memória não se  recordava que salvara aquela pérola de grande preço dois dias antes, de uma onça negra furiosa.
            Aquela queda, foi o doloroso golpe de misericórdia nas suas lembranças, que tiraram férias de abril, era 24 de abril de mil e borrachinhas...
      Os dois estavam a sós na choupana esquecida, os horizontes, o vento soprava assobiando. Eles  tentavam se comunicar e entrosar com gestos, e cada vez mais se entendiam. Brasil se rendia ao clássico português da jovem, a influência do seu idioma, fazia com que o guarani e os  dialetos dele fossem sufocados.
            Chegou a noite, não foram dormir cedo, ouviam grilos cantando no escuro, observavam a lua e as estrelas. Brasil  pegou uma flauta que sua mãe  fizera, quando ainda era criança.... tocava para aquela célebre mulher amável. Ela  acompanhava aquele som que ecoava na floresta escura noite a dentro. Ela cantava uma  cantiga de amor que acalmava a alma de ambos, enquanto um vento romântico trazia as suas narinas o perfume delicioso das flores que rodeavam a choupana, como o jardim do Éden.          
            Lusa, cansada de tanto cantar, chegou e se assentou mais perto da fogueira que acenderam. Cruzou as pernas  ao lado de Brasil, e caiu sonolenta no colo dele. E  por ali, amanheceram o dia, um chuvisco borrifava, enquanto observavam como a vegetação em volta estava branca de sereno. Trocavam palavras e mais palavras entre si, gestos e mais gestos, ela aprendia um pouco do guarani. E o português para Brasil se tornava idioma oficial. Brasil se transformava num homem gesticulador aos moldes da princesa. 


  

 

 

 

 































 



CAPÍTULO VII

 A COBIÇA GERA O PECADO DE BRASIL?


            O Alvoroço dos pássaros que voavam e cantavam festivos e o som que ecoava em todas dimensões da floresta naquela manhã anunciava surpresas...
            Brasil que acordara bem cedo, antes que o raios rutilantes invadissem aquele domicílio de palha, foi caçar um delicioso café da manhã, para agradar aquele presente de “grego” que caiara dos céus para ele.      
            Na mesma hora, todos os  tripulantes que vieram a bordo na embarcação, decidiram sair do conforto que aquela gigante caravela os oferecia, para ir procurar aquela flor que sumira, e nunca mais aparecera há muitos dias.
            Saíram em grupos de dez em dez, armados com espadas e armas de fogo, prontos para detonar qualquer fantasma aventureiro que tentasse frustrar seus planos de conquista: a  busca do tesouro real português, perdido na selva de pedras.  
            Enquanto Brasil não chegava, nem tripulantes davam sinal, aquele lindo girassol decidiu desabrochar para que todos inocentes pudessem ver sua beleza. Por  ali, assentavam e voavam aves e animais inofensivos da fauna nacional.
            Às margens de uma piscina natural de areias brancas, estava um vestido vermelho com um par de tamancos Luiz XV, de couro de bezerro nonato.  Mergulhava nas águas, e aquentava sobre uma pedra branca, como veio a vida, a estupenda beleza descoberta.    
            As águas silenciosas faziam um barulho que pouco se podia ouvir. De repente, uns passos vagarosos sobre folhas secas faziam os periquitos voarem, com barulho de espanto.
            Aquela “sereia” saiu de vagar da água, pisava sutilmente, indagando:
            ─ Quem será que vem pisando sobre folhas secas? Uma onça de novo? Um porco espinho? Um macaco prego?
            Os passos vinham em direção daquele corpo escultural, que nunca se tinha visto desfilando por aqui antes. Tão linda, e de pele diferente, seus cabelos louros molhados, caíam sobre seus seios, as gotículas  d’água  desciam refrescantes pelos contornos esculturais perfumados daquela extravagante mulher atraente. Ela ficou de pé, caminhava nas pontas dos dedos com o coração acelerado. As feridas voltaram a doer, os traumas devido à sequência de riscos de vida que correra começaram a aparecer, então lamentou:
            ─ E agora, meu Deus?
            Continuava o barulho de pisadas nas folhas dos pés de goiabas araçá, a apenas uma curta distância de uns seis metros. Ela  reparou a sua frente que raios reluzentes batiam nas profundezas do seu olhar, enquanto caminhava na pequena campina verde, coberta de sereno.  Ela começou a tremer como vara verde, o vento fresco batia nos seus cabelos louros avermelhados e os fazia dar um show para aquele ser de corpo musculoso. Seu coração começou a bater, acelerou lá dentro, tão forte a ponto de ser como um terremoto que estremecia toda América Latina, de um extremo a outro. O cheiro do seu corpo de perfume importado, penetrava naquelas narinas. Tu já viste uma branca ficar da cor de uma maçã? Trêmula dos pés a cabeça? Fixa naquela face, não sei se extasiada...
            Não  deu tempo nem de colocar  as pontas dos dedos no vestido. Quando ia abaixar para fazer  isso, ergueu a cabeça, endireitou seu corpo reto, com pingos que caíam dos seus cabelos no vestido e começou a tremer. Estava logo ali a sua frente, face a face, rasgando sua alma, com um olhar negro fuzilante, luminoso como um farol de carro aceso, se lembrou daquela cena...   Quando ela pisou seus pés no solo nacional, começou a desfilar exuberante no meio da mata de Pau Brasil, com aqueles tamancos salto alto. Com  aquele batom vermelho na boca, joias rutilantes no pescoço, aquele olhar ambicioso de conquista. Ela abalou o coração do galã Brasil. Ele ficou  hipnotizado, como quem via um anjo de luz, vibrado de paixão, pois a vira a primeira vez...  Nem piscara a menina dos teus olhos, resplandeciam como um espelho exposto aos raios ultravioletas do sol do meio dia. O  vento fresco que batia no seu corpo moreno, era o mesmo que fazia aqueles cabelos louros avermelhados dar um show de baile. O doce do  perfume importado entrava em suas narinas que inspiravam o cheiro de “eu te quero, venha para mim, linda portuguesa...”
            Oh, Mudo! Mudo! Não despregou a língua da boca! Suas pernas tremiam como vara verde, seu coração acelerado batia forte como um trovão, a impressão era que todo continente americano estava sendo estremecido por um terremoto. Batidas  de um coração apaixonado, pronto para se entregar de uma vez por todas. Tu já viste um moreno pálido?
            ─ É, é isso sim!
            Brasil ficou extasiado, diante da nudez da luxuosa filha de Dom Pedro I. Não houve ação dele, para que houvesse reação dela.
            Pela segunda vez essa lei falhou.
            Essas sensações aconteceram quando a viu pela primeira vez assim... Como ele resistiria todo aquele corpo sensual molhado? Era ela um anjo, uma tentação?
            Veio caminhando como quem queria tudo que ele pudesse oferecer. Com esse fim veio parar aqui,  para desfrutar da cabeça ao pés do famoso Brasil... 
            E quanto a Brasil? O que queria um filho da selva, de uma dama nobre, que não vivia sem o luxo? Como não experimentar? O que nunca tinha experimentado? Não era uma troca de luxo desconhecido aqui, pelo luxo daqui, que na verdade não era luxo por aqui?
            Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. “Depois, havido a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; o pecado, sendo consumado, gera a morte.” (Tiago 1:14-15)
            A caça que o moreno trazia, pediu por favor para não ver o filme, ia acabar no almoço de um casal.
            Brasil com a portuguesa, um caso que continua...
            Avançou aquela borboleta, posou nos lábios grossos de Brasil, e o ensinou sentir o doce mel tirado das flores... então, ela expressou palavras inefáveis como uma abelha encantada pelo multicolorido em torno deles:
O mais tenebroso dentro de mim é a que as flores morram,
Pois delas é tirada a essência do perfume desta existência
São elas que enfeitam nossos jardins coloridos do dia a dia,
Elas estão em nossos passeios maravilhosos que recordam momentos,
A primeira vez que te encontrei Brasil, elas expressavam meu amor por ti.
Quando as contemplo recordo o paraíso que nos esta oculto,
Se uma se murchar no campo e o mesmo que estar contigo na tristeza,
Em meus sonhos elas estão entrelaçadas em volta de minha cabeça,
Elas se desabrocham trazendo o cheiro suave que me inspira,
Rosas, margaridas, orquídeas em um mar de rosas de ti oh Brasil,
Um mundo colorido que aponta o verdadeiro sentido do viver,
Muitas se desfiguram no calor do sol e morrem para um renascer,
Um cheiro de amor, longanimidade com término no cemitério,
As flores contam histórias que os homens já esqueceram,
Quantas solitárias sobre uma mesa como sinal de uma despedida,
Outras jogadas em praças e avenidas com ar de decepções,
Em vasos que permanecem vivas expressando felicidade,
Muitas que se secam tornam lembranças esquecidas em nós,
Uma solitária no deserto que desperta o olhar do viajante,
Como seria difícil nossa existência sem a beleza das flores dessa pátria,
Como seria bom se todos compreendessem que elas são esperanças,
Em mim elas são veredas, colorindo-me no campo de um novo ser,
 Minhas belas amigas! Estou pedindo para ficardes comigo
 Preciso tanto deste cheiro quanto o homem de uma mulher,
Oh! Pai senhor a ti louvarei pelas flores que plantastes em mim,
Tu és criador, com grande amor criou a maior flor,
Plantou-a em uma terra seca, os homens a pisotearam e a matou.
O senhor olhou do alto, a tomou pela mão e a sustentou para uma ressurreição.
Agora olhe Papai, como está o jardim, tantas lindas nasceram dela nessa terra.
Meu amado Deus, eu sou uma florzinha, cuida de mim, meu Jardineiro.

            Não foi errado esse ato praticado pela moça? Brasil não era um inocente, e ela uma matrona experiente de vários relacionamentos? Não foi um pecado grave avançar contra um nativo? Na civilização dela, não tinham o costume de se casar primeiro? Não vieram padres a bordo do navio? Como não esperou? Por que abusou da inocência de um Guarani?
            ─ Amor a primeira vista, tu acreditas? ─ pergunta Ajadja e sorri ironicamente.
            Oh, amada criatura, para quem narro esses fatos. Ouça-me com muita atenção. Essa  portuguesa não podia fazer o que fez, pelos padrões da sociedade da época. Poucos sabem, e um deles é Ajadja, que ela era noiva daquele cavalheiro inglês. Que apresentou com aquele colar no aniversário de quinze anos. Tinha uma aliança com ele. Vivia beijando-o às escondidas escuras, andando a cavalo, pelos desertos da Ásia, depois se entrega a um índio? Como fica isso? Como isso fica? Seduziu o descompromissado varão de Santa Cruz Cambrália.
            O jogo tinha acabado, qual seria a desculpa dela para seu noivo inglês? O costume era que a traidora pagasse tributo, para o prejudicado, no relacionamento pela infidelidade. Quebra  do compromisso de sinceridade e verdade, enquanto estivessem unidos pela aliança.
            Brasil adormecido nos seus braços pelo feitiço da sensualidade, deitados na areia, escutava seus lábios descreverem as vantagens do sacrifício da viagem de Lusa. O  quanto sofreu, para tê-lo, como o amado de sua vida. Contou-lhe o susto da onça;  não podendo contar tudo devido ao desmaio. Nem Brasil recordava que fora ele quem a socorrera, pois tinha perdido a memória na queda. E ela ainda não estava cem por cento, sua comunicação, já era boa. Quanto ao pobre guarani, não lhe restava muitas chances de predominância. 
            Do outro lado da montanha, tiros eram disparados em animais e muito sangue escorria nas folhas da pequena vegetação. Uma tribo investiu resistindo o avanço dos estranhos, e foram baleados, muitos morreram de tiros, outros à espada, como animais que não tem valor nenhum. Que tristeza! Que tragédia sangrenta!
            Tudo que fazia a princesa vaidosa era aproveitar o momento que construía um romance com o moreno de Santa Cruz. Olhava nos seus olhos, e incansavelmente dizia: “Brasil, eu te amo, Brasil, eu te desejo, Brasil, eu te quero, Brasil, eu sou toda sua...”
            Brasil se tornava escravo de sua paixão, escravo do seu amor exagerado, escravo algemado pelos laços desse sentimento.
            Colocaram-se em pé. Contemplavam os vales, as flores, a fauna, a flora e nadavam juntos, e a portuguesa dizia: “Brasil, tudo isso Deus guardou para mim. Tu serás meu marido, trabalharás como deve todo homem trabalhar, e me protegerá como sua amada esposa.” 
        O jovem estava tão “encantado” com a fada, que só sacudia a cabeça positivamente. Acho que tinha esquecido até que nascera naquelas terras, que desde muito tempo pertenceram suas tribos ancestrais que já não existiam mais, mas preservaram a herança de pai para filho.
          Resolveram brincar de esconde-esconde, ela corria e escondia, ele a procurava. Nesta  brincadeira saíram na beira do mar. As ondas estavam agitadas, encontraram objetos que deram sinal de que gente civilizada passara por ali. Andaram mais um pouco e viram o grande veleiro, com uma cruz de malta estendida nas alturas, o vento a balançava. Brasil ficou assustado, nunca vira meio de transporte tão imenso antes. O costume do seu povo era fazer jangadas.
            A moça afobadamente foi para dentro do navio. Brasil à acompanhou; ela foi direto no quarto que viera, abrira o baú, apanhou um espelho e observou seu rosto. Colocou na frente de Brasil. O selvagem deu um pulo para trás, perguntou  enrolado:
            ─  O  que, que é isso?
             Tudo que a moça disse foi:
            ─ És tu, seu bobo! Macaco ignorante! É sua imagem e semelhança...
            Mexeu, tirou, mexeu no baú, abriu uma garrafa amarela, com um líquido rosado, colocou-o em duas taças que tinha costume de beber vinho em sua pátria e o dera. Começou a girar, como um peru tonto, ficou muito empolgado, que bebida mágica era aquela?
            Ela vociferou:
            ─ Não é mágica, tolão! É álcool com uva e água passado por um processo chamado fer-men-ta-ção!         
            O mancebo via coisas ali que o tirava do sério, mas para ela não passava de objetos do uso cotidiano. Só que para quem nunca viu nada, até pedras é novidade, quanto mais espelhos e vinho...
            Passaram a noite no navio, o marinheiro de primeira viagem dormiu bêbado, como criança que não tem malícia.





CAPÍTULO VIII

O ENCONTRO COM OS TRIPULANTES E A FESTA DE 26 DE ABRIL
 

            Era 26 de abril, de um dia sei lá das quantas... disse eu a Ajadja sorridente:
            ─ Já estou viajando nessa história, apesar de não me considerar romântico. Que  diferença faz hoje também, né?
            ─ Tu ainda lembras que me perguntastes sobre o casamento de Brasil, quando te perguntei se acreditavas em amor à primeira vista? E que na primeira missa realizada por aqui se casaram? Quando tu me perguntaste se vieram padres a bordo com eles? ─ perguntou-me Ajadja .
            ─ Não.
            ─ Vejo que tu precisas ser mais paciente, querido mancebo, considere esse conselho de Ajadja; tu és muito afobado, já nem lembras mais das perguntas que me fizestes?! Diz o provérbio; “paciência é virtude do sábio” os moços desse século andam muito afobados por questões materiais, sexuais, e pelos prazeres que eles têm medo de não curtir. Por ser nosso tempo como vento. Por isso é que acabam enlaçados em muitos males, por não ter paciência, que é um selo clássico que poucos têm guardado.
            ─ Mas estamos na globalização? Esperar muito é muito difícil, o mundo exige urgência.
            Ele riu, com sarcasmo e disse:
            ─ Quando estamos sobre uma cama, estressados, cheio de doenças, o tempo se apressa em passar rápido, para a dor e depressão desaparecerem mais depressa? Onde está a urgência, quando estás morrendo ou nascendo? Tu já imaginaste, se o Deus cristão, que tu serves, fosse urgente na situação que se encontram as pessoas e o mundo?
            ─ Oh! Tu estás certo! Eu preciso de calma, afinal de contas todos lutam pela paz e tranquilidade. O homem quer essas coisas a qualquer preço, só que elas não se acham na correria. Elas são filhas da eternidade, e essa não tem pressa. Todos os dias me diz “Bom dia, Ajadja!”
─ Quero que tu me ensines como descobrir isso?
            ─ Engraçado... Quem ensinou Pedro Álvares Cabral descobrir o Brasil? Não usou uma caravela, seu esforço, coragem, vontade, esperança e fé para chegar aqui e ver que  tudo isso aqui existia? Via ele esse lugar? Se não via, como chegou aqui?... Filho, isso estava dentro dele, tudo está dentro de ti, creia, tenha vontade, esperança, fé e amor por aquilo que não vês, mas sabes dentro de ti, que isso existe...  Não foi assim com a apaixonada jovem real portuguesa? Deixou muito de sua vida de promessas, se aventurou em caravela, crendo que Brasil ia ser seu. Enfrentou  mares e perigos, por amor a um amor que não conhecia, mas sentia que ele existia, só de ouvir comentários a respeito do assunto, das possibilidades de realizar o senho de ser feliz numa pátria distante? Se já esperava por isso, quando visse, logicamente seria amor à primeira vista. De  longe o avistou, e no dia 26 de abril, casaram-se, quando todos os tripulantes se acamparam em Santa Cruz Cambrália. Os dois saíram da embarcação, e se depararam com aquela festa, a primeira missa que realizaram, após a chegada de Portugal. O padre  rezou a missa, de um lado Brasil, do outro a filha da corte, vestida no traje fino, adornada de joias, esbelta gata de gostoso agrado de todo macho...
            ─ Tu prometes ser fiel a Brasil? Amá-lo na pobreza e na riqueza? Na doença e na saúde, até que a independência ou morte os separe? ─ disse o padre.
            ─ Sim! Prometo! 
            ─ O senhor Brasil promete honrar sua esposa e ser fiel? Trabalhar para sustentá-la? No minério e na mata? Explorando do bom da terra para oferecê-la? Não se envolvendo com outras?
            ─Sim, Sim! Prometo!
            ─ De agora em diante, eu vos considero marido e esposa!
          Brasil a beijou na boca, com juras de amor, enquanto todos batiam palmas:
            ─ Viva! Viva! Viva! Coroa vermelha! Coroa vermelha!















CAPÍTULO IX

UMA CASA NOVA, UMA VIDA NOVA, BRASIL E A LUA SEM MEL

            A lua resplandecia atrás do monte... já  eram  seis horas da tarde, nuvens amarelo-laranja-vermelhas, distantes expressavam a beleza da vida de uma terra virgem. Andorinhas  voavam em bandos fazendo verão, um arco-íris estendido de norte a sul, era uma testemunha da felicidade de Lusa e Brasil. O  índio guarani ainda tropeçava em muitas palavras do português clássico da princesa...
            Ela derramou sobre o seu corpo esbelto, como uma palmeira do sertão nordestino, um vidro com uma essência de perfume francês, que ganhara de uma prima, que fora a Paris.  Estava em férias, e não resistiu a fragrância, não hesitou em comprá-lo para a “deusa” cobiçada pelos rapazes das escolas de Lisboa. 
            Lusa tinha feito uma promessa para sua prima; que usaria apenas a metade daquela essência e que a outra, usaria em sua lua de mel, se ainda assim podemos considerar...
            Na verdade, Brasil sentiu esse cheiro gostoso antes, quando suas narinas sentiram o exalar daquele monumento esculpido pela perfeição, na areia do rio.
            Uma lamparina que Lusa trouxera de Portugal, clareava a cabana, o ambiente nem claro, nem escuro, criava um clima excelente para se esbanjarem nas delícias do amor. A moça abriu o livro que muito apreciava, embora não o praticasse de todo em: “Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, labaredas do Senhor. As muitas águas não poderiam apagar esse amor nem os rios afogá-lo: ainda que alguém desse toda a fazenda de sua casa por esse amor, certamente a desprezariam”. (Cânticos 8: 6-7)
            E acenderam a luz, e houve luz, e era boa a lua de mel que desfrutavam, os sete dias de liberdade sem pecado...  
            E foi a tarde e a manhã: o dia primeiro. E viram que era bom.
            E foi a tarde e a manhã: o dia terceiro. E era bom.
            E foi a tarde e a manhã: o dia  no quarto. E viam que era bom!
            E foi a tarde e amanhã: o dia quinto. E viram que era bom!
            E viam tudo que faziam,  e eis que  era muito bom.
            E foi a tarde e amanhã: o dia sexto.
            E havendo acabado no dia sétimo, descansaram de tudo que haviam feito.
           
            Seis dias de pura euforia, e voltaram aos planos de construção de uma família. Brasil que estava se adaptando a uma nova cultura, mais que depressa se preocupou com castelos, palácios e impérios. Assim pensavam os homens que se casavam com princesas. Brasil além de se casar com uma linda herdeira do trono, era apaixonado por ela... era a primeira mulher de sua vida.
            Certa tarde, foram passear pelos campos, para que Lusa pudesse conhecer melhor o lugar que pisava, e escolher onde seria a nova casa modelo português.
            Decidiram que morariam nas proximidades, onde se conheceram, onde tudo iniciara, era onde queriam que tudo terminasse.  Por ali viveriam juntos, até que morressem e uma nova geração surgisse, e deixariam os túmulos para que todos lessem “Brasil e Lusa”.
            Com toda energia que tinha o jovem mancebo, trabalhava sem parar, para realização do sonho da portuguesinha. Ela queria uma morada com vistas para o rio das cenas inesquecíveis entre os dois, que ficaram gravadas na memória de ambos.
            Enfim tudo ficou pronto, o que a esposa queria. Suava Brasil tardes e manhãs, para fazer os móveis exigidos pela realeza.  Tudo das melhores madeiras, que a região tinha para oferecer. Ele cortava a madeira que Lusa achava preciosa, pois era duradoura e dela se extraía tinta. Eles fizeram amor pela primeira vez debaixo de uma árvore, na beira do rio, por isso colocou o nome dele na árvore. Queria uma castelo mobiliado com ela, além de mandar exportar  para as amigas da Europa. Quem pede Deus uma princesa, não se esqueça nunca de pedi-lo primeiro um castelo; se não o bicho pega.
       














CAPÍTULO X

O PRIMEIRO FILHO, A VINDA DE DOM PEDRO I .


            Quando Brasil chegara de uma mina de ouro, numa tarde fria do mês de julho, cansado de tanto trabalhar, não tinha tempo nem para se alimentar direito. Precisava se esforçar, para manter os padrões da burguesa que assumira. Extraía muito ouro, diamante e pedras em geral, sem contar o Pau-brasil, que jogava no chão para exportar, se não a formosa “Lusa” brigava dia e noite.
            Ela estava na cama suada, sentia fortes dores de parto, era seu primeiro filho. Não havia hospitais, como nos dias hodiernos. Também não veio nenhuma parteira no navio. Brasil teve que colocar para fora as habilidades que sua vovó o ensinara, para que na necessidade colocasse em prática.
            O cavaleiro deu à Lusa, para colocar na boca, uma casca de uma árvore típica da região, era uma casca muito macia e disse:
            ─  Aperte com força! Mordendo-a, assim as dores serão suportáveis.
            A  moça gritava como quem via um “trem desconhecido”.
            ─  Aí! Aí! Aí! Aí! Vou morrer! Não vou aguentar!
            O choro infantil,  anunciava que o bebê estava na luz de um novo mundo.
            Brasil vibrando de gozo, alegria, felicidade e euforia começou a cantar uma linda canção que dizia assim:
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braços fortes,
Em teu seio, ó liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó pátria amada,
Idolatrada,
Salve, salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança a terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do cruzeiro resplandece.

Gigante pele própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu,  Brasil,
Ó pátria amada!


Dos filhos desse solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminando ao sol do novo mundo!

Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
“ nossos bosques têm mais vida”
 “ nossa vida” no teu seio “mais amores”

ó pátria amada,
idolatrada,
salve, salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula
_ paz no futuro e glória no passado.

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que teu filho não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!”

      Por um momento, Brasil calou-se. Lusa olhou a criança e chorou. Um choro amargo de tristeza, que Brasil não hesitou perguntá-la:
            ─ Por que choras?   
            Aquela criança pura, na inocência indigna, seria vítima de sentimentos, dos quais nunca fora culpada. Lusa recebera uma carta, que o capitão do navio a trouxera, escrito o que ela não esperava na ocasião:
           
            “Lisboa, 3 de julho de 'mil e borrachinhas'
            Sauda-te, teu pai, querida filha minha.
            Estou morrendo de Saudades, sei que tu não virás por esses dias, embora tenhas que marcar seu casamento com o nobre cavaleiro filho da família real inglesa, todos sonham com esse dia, a Europa em peso espera ver-te no altar da catedral mais luxuosa do continente, assim como tu és a mais linda, a mais bela, a mais atraente, a mais exuberante, a mais cobiçada, a mais engraçada, a mais almejada moça, que todo rei quer ter como filha. Tu és minha coroa brilhante, através de ti, uma aliança foi estabelecida. Devemos-te toda honra. Estou indo para visitá-la, não sei como andas, creio que tudo está bem, não recebi nem uma notícia, desde que fostes, te levarei alguns presentes. Aquelas  roupas que tu gostas, sapatos, perfumes e livros.
De teu querido pai.
Dom Pedro I.”
            O choro não parava, misturou-se com o do bebê que amamentava. Aquela criança morena não sabia o que à esperava. Só de pensar no casamento com Brasil, já era um grave problema; e um filho que não estava  nos planos da jovem tão cedo?
            Que pena, às margens do rio, amor proibido pela “legislação,” do fruto do pecado veio o que daria início a grande perturbação. A crise de sete anos, tudo tem seu preço, o fogo acende e se apaga, a água desce e torna subir, a paixão forte, tem sua fraqueza. 
            Lusa caiu em si: um filho mulato, casada com um selvagem. Noiva estava de um filho do rei inglês, desde sua vinda de Portugal. Fora do juízo normal, o que fazer agora? Como ficaria a honra do jovem inglês? E quanto a Lusa e Brasil? Seria Desfeita a união?
            ─ Oh, meu Deus! Que confusão ─ interrompi Ajadja. ─ Que doidura é essa, meu vovó? Vai ter morte nessa enrola, uai?!
            ─ Filho, tu vais ver uma imundícia. Uma imensa correnteza de imundícia, que contamina um oceano, que mata vidas intoxicadas. ─ disse-me o ancião que me narrava a história. ─ Tu és moço novo, tu precisas entender mais da velhice, não se cura uma doença, sem antes descobrir o agente causador dela. Não  se mata a fome, se não plantar e distribuir o suficiente para condená-la a desaparecer. Com  Brasil teve um introito, com Brasil continua, a mesma linha reta de desgraça. Toda culpa é do seu coração. As bases do sentimentalismo, prefere ouvir gestos, a prestar atenção nas razões. É um ser feito no meio das matas, misturado com bichos do campo. É um índio, selvagem que não aprendeu nada por si mesmo. Fala o idioma que aprendeu de Lusa, para expressar seu amor, sua paixão e seus mais profundos anseios descontrolados. É um homem guiado, não aprendeu guiar, é um bom cantor, mas não inventou instrumentos.  Suas donzelas, filhas desse homem, andam no gosto das modas de roupas portuguesas, para não andar seminuas.
            ─ O que esse homem tem de bom? 
            ─ Só o coração cheio de amor!!
            Mesmo desse jeito nunca vi um sujeito gente boa como ele, está pronto para se sacrificar pelos outros, divide o pouco que tem com os necessitados.
            Hoje usa óculos de grau, não enxerga quase nada. Quase não depende dos óculos de lentes importadas, suas cataratas são mais antigas “ do que as pirâmides do Egito.”
            Brasil aprendeu amar uma moça, que muitos queriam e não conseguiram tê-la, é um herói digno de uma estátua numa praça do distrito federal. 
            Monumento em memorial à esse guerreiro, que lutou e luta sem armas, e por isso não tem muitos inimigos mundo a fora. É um exemplo de cidadão a ser copiado, por quem fala muito em diretos humanos, e não tem nada de humanos. O sentimento para com seu vizinho que trabalha ano a ano para colocar sobre a mesa um bocado de pão para seus filhos. Mesmo  assim, muitos índios americanos que não são da linhagem amorosa de Brasil, assaltam suas pobres habitações,  esses malignos estão espalhados pelas Américas.
            O que fazer agora?  É a pergunta que ficou no ar.
            O filho tinha nascido, doá-lo não podiam. Por um fim na união era quase impossível. Dois  apaixonados não se desgarram por nada. Tudo que “Lusa” passou introjetar para dentro de si, foi uma rejeição mesquinha a criança. Que crescia, crescia, crescia... e deram-lhe o nome de ‘‘Fernão Dias.‘‘
            Sorri ironicamente para Ajadja.
            Crescia o garoto, rasgando floresta no peito, montava no cavalo. Acordava  de manhã, dormia pelas cavernas e em lugares desérticos. Tornava-se um símbolo da exploração. Com bravura e coragem espezinhava aldeias e vilarejos, levando o nativo ao cativeiro de escravidão.
            Certo mês, ele sumiu. Deram notícias dele numa terra que deram o nome de São Paulo. Quando voltava trazia ouro e muitas pedras preciosas, isso era agradável à ambiciosa Lusa. Ela  cada vez mais deixava se seduzir pelos produtos da terra. Então escreveu essa cartinha para seus parentes distantes. Ajadja a encontrou em uma lata de lixo em Minas Gerais.

“29 de agosto de 1822

Meu querido e muito amado,

            Mando-lhe o Paulo; é preciso que volte com  a maior brevidade, esteja persuadido de que não só amor, amizade que me faz desejar mais que nunca sua pronta presença mas sim as críticas circunstâncias em que se acha o amado Brasil, só a sua presença, muita energia e rigor podem salvá-lo da ruína.
            As notícias de Lisboa são péssimas: 14 batalhões vão embarcar nas três Naus, mandou-se imprimir suas cartas e o povo lisboense tem-se permitido toda qualidade de expressões indígenas contra sua pessoa, na Bahia entraram 600 homens e duas ou três embarcações de guerra, e nossa traidora esquadra ficou de boca aberta olhando para eles, na cidade do rio tem produzido, estas  notícias, o maior alvoroço.
            Os ministros do estado escrevem-lhe esta carta, aqui inclusa, e assentou-se não mandar os navios para o sul porque o Lecor se desmascarou com Moratto e era capaz de embarcar a tropa para Santa Catarina; a sua vinda depois decidirá se sempre quer mandá-las.
     Todos aqui estão bons e Maria já sei e o Manuel Bernades a curou muito bem.
      Receba mil abraços e saudades muito ternas
Desta sua amante....
Lusa Leopoldina
           
            Brasil tornou-se garimpeiro de carteira no bolso, para a esbanjadora mulher portuguesa. Uma poderosa ingrata, que amava o marido, mas o fazia escravo do seu prazer.   
            Brasil plantou também fazendas e fazendas de café, cana-de-açúcar, criava animais.
            Tudo isso não preenchia o vazio por poder que Lusa tinha consigo. Isso fez com que ele a amasse cada vez mais, se tornara um daqueles maridos que chamamos de cachorro.
            Homem valente, trabalhador, escravo do amor de uma paranoia. Quem ama princesa, que a dê o que é digna: luxo, segurança, o amor que merece e tudo que sua alma almejar, vá quebrar pedras. Ambição é comum a uma realeza, não deseja apenas o reino, quer todos os corações dele, inclusive o principal: o do marido, dominado pelo feitiço do poder.





















CAPÍTULO XI

DOM PEDRO I CHEGA, LUSA  E SUA RIQUEZA NA BOLSA LONDRES.


            Eu estou sendo ligeiro ao dizer-te as poucas palavras que me inspiram narrar fatos que mudaram a vida do vilão Brasil, da água para o vinho. Dona “Lusa” não foi compreensiva com este homem como deveria ter sido. Todos os humanos são dignos de oportunidades, para demonstrar sua fidelidade e dedicação uns pelos outros, sem ser barrados pela mentira e desonestidade que é o símbolo dos prepotentes. Estão usando o poder para oprimir a massa, que lhes é sujeita. Brasil é o tipo do homem que mora dentro de um consultório de psicologia.  Seu estilo pessoal de contornar e tentar dar um jeitinho em tudo, não tem fusionado em relação a estabilidade de seu matrimônio e o equilíbrio de sua família. Padece muito por te ter errado bastante quando não deveria  vacilar.
            Ajadja fala desarmonicamente nesta parte.
            ─ Tirarei as máscaras de “Lusa”!!! ─ disse-me ele com ar de ironia. ─ Esse anjo que Brasil viu tomando banho, é o mensageiro do descobrimento, não tinha asas de anjo, nem amor afagoso do céu, é  de carne... com toda cobiça, arrogância, para perto de presunção,  não voava, anjo que não perdoava.  Seu pai que estava distante, não sabia o que se passava por aqui, não sei se não... a força de atração dela foi um feitiço que dominou meu amigo Brasil. As  mulheres sensuais tem mais poder do que satanás, por isso ele as contrata para realizar tarefas que não tem capacidade de realizar!
            Num ano que não citarei a data, chegou Dom Pedro I para ver como eram e como iam os acontecimentos na terra dos sonhos, conversar com sua filha. Veio também com a família real, o irmão de Lusa Dom Pedro II, moço elegante e humilde, mas não tinha habilidades para herdar trono e ser rei de uma terra imensa e rica como a nossa.  Graças a transferência de cargo após a morte, ou uma improvisação, peixada e ausência o deixavam privilegiado. O moço II, dava um bom ator de filmes de bang-bang, nunca rei de nação!!!
            Quando as caravelas chegaram, a filha de Dom Pedro I, sorriu de vontade de dominar:
            ─  O Brasil é nosso! ─ exclamou alto!
            Seu marido não abriu a boca, nem para dizer; sim ou não!
            Creio que aqui nunca foi dele, não lutava pela preservação do que Deus o dera, que pena existiu gente assim!
            ─ Papai! Mama! Papai! Mam...
            Beijos, abraços e lágrimas caiam no solo nacional, enquanto Brasil atoleimado observava os cães que vieram nos navios, como quem estava vendo Jesus Cristo. Nem piscava ao ver os cavalos, foi totalmente envolvido pela curiosidade, que o pai de sua esposa nem perguntou quem era aquele que a trouxera selva adentro até a presença deles...
            Foram para casa da portuga, não perguntaram nada sobre o mulato.
            De repente, à mesa no jantar, um beijo na filha de Portugal!
            ─ Que isso?  Que isso? Quem é essa criança que a beijou?
            ─ Papai, eu... eu... eu te explico tudo!
            A mãe de “Lusa” tremia não querendo acreditar, deixou o copo de suco de laranja cair no chão e perguntou:
            ─ Não, não... é o que estou a pensar, é Lusa?
            ─ Nem, eu... é, Lusa? ─ disse Dom II, seu irmão.
            ─  É , é, é...  ─ gaguejou Lusa.
            Em segundos, Brasil entrou na sala, estava lá fora buscando uvas na vide para o rei.        Todos assustados,  Lusa só gaguejava, quando a língua se desprendeu e disse:
            ─ É, ele o pai!
            A rainha desceu com a cara no piso de madeira, desmaiou...
            Dom I e Dom II, beberam duas garrafas de bebida quente que trouxeram á mesa...
            Lusa abraçou Brasil, o beijou no rosto, amarelada e ao mesmo tempo avermelhada.          Brasil olhava para Dom I... e Dom Pedro II  tentava colocar de pé sua mãe, e Fernão Dias  perguntava:
            ─ O que está acontecendo, mamãe?
            ─ Nada! Nada! ─ dizia sua mãe─ É que vovó bebeu muito!
            Quatro horas se passaram, acordou a rainha.
            ─ Não posso acreditar! Não, não é verdade! Estou a sonhar! É um pesadelo! Não aconteceu...
            ─ Ajadja, que coisa, heim?! O que aconteceu depois? Curiosidade não mata, perguntei ao ancião querendo os mínimos detalhes!
            ─ Meu jovem, meu jovem, caro jovem... até agora não aprendestes ser paciente? Tu queres abraçar o mundo de uma só vez? Pela última vez, porque tu és assim, é tua religião que moldou esse teu caráter? Tu és muito ocioso. Na Grécia antiga, acusaram Sócrates, o filósofo que projetou Platão, de corromper a Juventude. Necessário era aquele tipo de corrupção, se assim pensavam da sabedoria, razão que o acusavam. Quanto  a tu, és um garotão que precisa aprender as artes clássicas da inteligência afinada. Deves ser “corrompido” pelo verdadeiro saber que traz paz e consolo à alma. As faculdades que formam os jovens, como tu, os prepara para o mercado da vida e não para vida, por isso muitos deles estão suicidando-se. Ensina-os a ganhar dinheiro, fama e poder, não constroem cidadãos com virtudes. São criaturas ansiosas como tu, que só pensam nas virtudes como tolices, que não nos acrescentam nada, em razão disso, eles não têm nada para nos oferecer. Vivem angústias intermináveis, um desespero intelectual sem esperança. De que adianta todo seu conhecimento acadêmico, se não sabes ainda qual o seu objetivo final? Qual a finalidade de tudo que tu tens buscado? Qual o fim? Felicidade? Amor? Eternidade? Qual é o fim? Oh! ser um homem justo e bom? Meu querido cavaleiro, não estou te dizendo que deves ser justo, estou dizendo que justiça é uma coisa a ser buscada. Não estou dizendo que deves  se tornar o padrão do amor, amor deve ser vivido. Quero  apenas que tu saibas, quando nos vamos procurar petróleo nas profundezas, cavamos fundo, quando o vemos, sabemos que não apareceu por acaso. Fomos extraí-lo, o homem só encontra o que seu coração deseja, quando avança intensamente com sede de achá-lo.   “Buscai o Senhor, enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto” (Isaías 55-6). Sejas prudente na busca, sua alma tem sede, cuidado para que não bebas veneno, e assim morras pela própria boca, que pode te dá vida, quando a usas para se comunicar com o imutável, e a morte, se fores usada com insensatez.
            ─ Tudo bem, Dr. Ajadja.
            ─ Ah, não! Já sou doutor?
            ─ Ah, sei lá Ajadja. Nessa nação, tem gente que é, sem saber; porque tu que sabes não podes ser?  Eu sei que sou confuso, sei que ser jovem hoje é ser confuso. Recebemos tudo pronto, uma enxurrada de informações penetram nossas mentes a todo momento. Nós nos tornamos programáveis, robôs fabricados para atender os anseios da sociedade, não temos tempo de pensar, e quando o homem não pensa por si mesmo, é como o computador, que é manipulável. Foi formado na melhor universidade, o programam para atender nossas necessidades, cumpre bem o dever, o grande problema é que não pensa por si mesmo. Estão  imprimindo nas mentes muitas informação, e o homem não consegue ainda responder “quem sou? A onde estou? Para onde Vou?” Como sofrem tanto, para dar a luz uma realidade que não julgam se vale a pena? Para que tanta correria? Por que tantos projetos? Qual a finalidade disso tudo? Por que salvar as vidas? Se não sabem o que é a vida? Qual o valor de uma vida, se ainda negociam a eternidade? As virtudes não estão acima do que procuramos afoitamente concretizar? A finalidade não é paz e felicidade? A finalidade do clone não é vida em prosseguimento, eternidade e perfeição? Tudo acaba onde começou! No princípio! Tu estás perdido, creia no princípio, não terás como fugir Dele. Tu  queiras, tu não queiras, é uma verdade absoluta, voltarás às tuas origens.
            ─ Meu caro, tu me surpreendes! Deste-me uma aula. ─ elogiou-me o sereno Ajadja.
            ─ Não, não dei não, seu Ajadja! Falei apenas aquilo que é simples. Os jovens da sociedade é que estão corrompidos por uma filosofia da morte. Isso que falo para o mundo de hoje, para a maioria, é tirar os garotos do bom caminho, do ir à lugar nenhum, meu crime é digno de cicuta. A apologia da vida nos nossos dias é quase um crime. Sócrates nunca foi um herói para mim, apenas um sensato homem revolucionário, apologista da vida. Os homens simples, com conceitos simples, são os homens que mudam o mundo. Complicaram tanto as coisas hoje, ao ponto de estarmos nos tornado escravos da evolução tecnológica e cientifica. Ela cresce rapidamente, e domina a massa que se prende a ela, é um mal sem misericórdia, não existe mais vida, apenas fantasias para fugirmos da dor de sabermos que morreremos amanhã. Só adiaram a morte! Refletimos perturbados, que somos homens, nada mais, quem dera fossemos deuses, quem sabe tudo estava acabado. Graças a Deus que podemos ter uma chance, crer em Deus, isso é lucro, não pagamos nada por isso, estou na canoa.
            ─ Muito bem! Gostei do teu discurso, mancebo. Tu ficas mais lúcido quando começa a pensar... É o segredo!
            ─ Querias saber o que aconteceu no decorrer dos dias da família real traumatizada com o drama da filha Lusa?  
            Depois de duas semanas que a rainha estava tomando suco de maracujá como calmante, estava muito nervosa, tensa e quase não se alimentava.
            Num domingo de manhã, Padre Thommas, que viera com os nobres nas caravelas, estava presente e leu as escrituras sagradas para todos. Explicou um pouco do texto de primeira Coríntios, capítulo treze, que discorre sobre o amor como dom supremo. Talvez tenha lido esse texto com a intenção de convencer a mãe da princesa a aceitar o casamento da filha como um dom de Deus, e na tentativa de explicar que o amor nasce nos corações, supera as crenças, raças, etnias, posições, etc. Ele usou a bíblia de Lusa em  latim para ministrar o sermão. Após abrir as páginas deixou cair no chão um poema de amor que ela transcrevera em guarani, após ser declamado por Brasil.
            Então, Lusa traduziu para o curioso Thommas os versos poéticos.

“Ah, meu amor, sele meu coração.
Com seu almejo carinhoso
Não posso fugir do seu amor.
Oh, minha amada, espero-lhe exuberante,
Da dor já está cansada,
Solidão é tudo que sente.
Deixe-me enxugar-lhe as lágrimas,
Coloque a cabeça no meu corpo quente,
Deixe-as escorrerem sobre ele,
Como torrentes de águas, fuja do orgulho.
Passaste toda existência chorando,
Agarre-me agora, estou te amando.
Não poderá esconder no teu olhar,
A vontade de amar-me.
Arranque de dentro de mim, meu coração, pegue-o em tuas mãos,
Tatue-o com um beijo dos teus lábios,
Coloque-o dentro de mim, para bater só para ti,
Esteve presa em ilusões,
Príncipes encantados nunca existiram,
Eu sou real, quero entrar em seus sonhos,
Quero fazer parte dos planos de sua vida de amor,
Lusa orgulhosa, poderosa que sofre sozinha,
Quero amar-te, tu serás só minha.
Narizinho empinado de burguesa, às minhas palavras já está presa.
Estás tu torturada interiormente,
Vaidosa borboleta que busca mel nas flores,
Sou o remédio que sarará suas dores.
Não sei por que te amo;
Só sei que te amo.
Não sei por que te chamo;
Só sei que te chamo.
Quando digo que te amo,
É porque te quero.
Quando eu te chamo,
É porque eu te amo.
Fico pálido e sem experiência
Quando vens a mim, com sua inocência.
Não me deixe chorar
Ensina-me um pouco do amar
Coisas lindas quero te falar
Venha! Venha, Amada, teu querido escutar.”

            Logo que acabou a leitura, Lusa deu um abraço aconchegante em padre Thommas, que causou um olhar atravessado de admiração da mãe na filha. Antes ela achava padre Thommas um quadrado fanático, que cria em Deus. Embora  fosse católica por tradição e lesse a bíblia. Lusa admirava muito a imagem de Jesus Cristo, como todo sincero Jesuíta, mas raras vezes  seguia os ensinos da bíblia.
            ─ Que isso?  ─  disse a rainha. ─  Está mais humilde agora? O teu nariz  engrossou?
            Padre Thommas, apenas sorriu tranquilamente, pensou que foi devido ao sermão que apontou o amor dos dois como vindo de Deus. Não sabia que foi como um agradecimento, por sua pobre alma ter sido salva da mordida da serpente, e pela ressurreição milagrosa de Brasil. Graças ao ensino que com muita dedicação, oração e carinho dava todos os domingos pela manhã no castelo real de Portugal.
            ─  E aí, menina? Desembucha! ─  imperou a rainha mãe.    ─  O que aconteceu? o que está acontecendo, posso saber porventura?
            ─ Claro! Claro, mamãe. ─ disse Lusa mais calma. Quando cheguei aqui mamãe, conheci o Brasil. Tinha ouvido a senhora falar de Homens de pele diferente, morenos, cabelos negros, lisos, olhos negros, pele sensível.  Então, vim ver se tudo que diziam escondido era verdade mesmo. Já vim encantada; acabei me apaixonando por Brasil e me casando com ele.
            ─ É assim que uma princesa faz? ─ sussurrou iracunda a rainha.
            ─ Não, mamãe, mas a senhora amou um dia, e conheça a linguagem do amor melhor do que eu, o coração não tem dono; é patrimônio do amor e ninguém o doma, engraça por alguém quando bem o quiser, não é?
            ─ Filha, filha... Não te dizia sempre quando era adolescente, “que enganoso é o coração mais do que todas as coisas, quem o pode conhecer?”
            ─ Sim! Sim! Creio que não me enganou o meu, mamãe!
            ─ Vou te dizer as últimas palavras, filha: quero que tu saibas que eu e teu pai a amamos muito, porém não apoiamos essa união. Queríamos muito que tivesse casado com o Kuvisk, o nobre inglês,  talvez assim nossa dívida fosse perdoada, tu a fizestes aumentar. Agora, o teu Brasil e tu trabalharão duramente para pagar pelo erro, que tu cometestes... Pagando o que deves por ter quebrado a aliança e exposto a vida de um príncipe a desonra...
            ─ Mamãe, seja o que Deus quiser, eu só quero ser feliz, com o amor de minha vida, disse firmemente Lusa.
            ─ Que tu pagues pelos teus pecados, e que Deus a castigue por ser desobediente, casando-se escondido, e se deitando com índios atrás das moitas de mato. Colherás os frutos das sementes que plantastes, nessa terra dura se multiplicará os teus filhos. Sofrerão na nudez e na pobreza, até que Deus tenha compaixão de ti. Serás filha de rei em terra estranha, muitos nascerão de ti, serás provérbio nos lábios do povos. Daqui, piadas a teu respeito se ouvirá em todas as esquinas. “Princesinha vulgar”, “vagabunda” que aproveita da inocência de índios,  induzindo-os na cama, para matar os desejos de sua carne que não teme a Deus. Sua geração não terá cara, nem cor, nem brilho de ser um povo. Pois minha filha se misturou com um selvagem. Morrerás nos quintos do inferno e nele serás sepultada, vadia  que se deita com um e outro antes do casamento,  não te ensinei que isso é abominação para o Deus? Como mãe eu te abraço e beijo, como rainha no trono, cuspo na cara desse ignorante nativo, saquearei tudo o que ele tiver ganhado até hoje, do suor do teu ouro comerei o meu pão por toda vida e levarei para minha terra as riquezas de Brasil.
            Ao ouvir tudo isso Lusa deixou as lágrimas descerem dos teus olhos, implorou de joelhos pelo perdão da mãe para o jovem Brasil. Sua  mãe endureceu o coração como Pedra.
            ─ Eu quero é que esse jumento morra de tanto carregar carga de ouro e pedras preciosas, que seja esmagado com toneladas de Pau Brasil.
            A faca sangrava o coração de Lusa que suportava com lágrimas e não podia defender o grande amor de sua vida. Sua  mãe saiu da sala, cuspiu no assoalho, e colocou a coroa na cabeça e disse:
            ─ Passe bem, esposa de pobretão. Quem sabe um dia visite sua família, que não és mais digna do nome! Deus a proteja!
            ─ Não, mamãe! Não me abandone! Não, não, não mamãe...
            Lusa Berrava, esperneava, chorava, gemia, gritava, tremia... Lágrimas desciam, molhou seu vestido que ficou ensopado como se tivesse mergulhado num rio com roupa e tudo. Que dor, que sofrimento, que angústia lamentável! Lamentável!
            Brasil chegou do campo e a encontrou nesse estado, foi a cozinha apanhou um copo   d’água, adoçou-a  com açúcar e a dava a beber devagar. Seus dentes rangiam, batia queixo, até que foi acometida de uma febre terrível...     
            Nada curava sua febre, emagreceu, ficou como um palito. Dava dó. Brasil colocava sopa na sua boca. Seis meses ficou doente, até que um anjo apareceu na janela e a fez lembrar o texto bíblico que a salvou do veneno mortífero da serpente, foi tiro e queda, foi curada na hora.






CAPÍTULO XII

LUSA TEM MUITOS FILHOS, IMPLORA POR CRIADOS PARA AJUDÁ-LA NOS CUIDADOS DA CASA


            Brasil assentou-se à mesa para comer o jantar, estava muito faminto, sua esposa exigia luxo, ele trazia ouro e mais ouro, prata e diamante.
            Sua mulher pegava o ouro na mão e dizia:
            ─ Sou poderosa! Sou a rainha da terra!
            Era de chorar... Toda aquela glória, era mandada para Inglaterra, passava pelo controle de Dom Pedro I, e descia para o Reino Unido. Quem mandou sua filha se envolver com essa gente, procurou guerra, guerra teve com esses Ingleses e raças que usam emprestado esse sangue.  Sempre estão em nosso caminho, deixaram Lusa nua, enquanto muitos pensam que está pomposa com a exploração de Brasil.
            Exaltadamente deprimida, naquela noite gritou nos ouvidos de Brasil:
            ─ Eu quero servos! Dê-me escravos! Compre escravos para que produza mais! Eu não aceito ser pobre! Tu não se casaste comigo para fazer de mim uma bugiganga!
            Brasil que já estava magro de tanto trabalhar, encheu sacos de ouro, e trocou atraco dos filhos da África. Gigantes foram esses que não são lembrados, eram desprezados e os mais indignos da terra, não tinham liberdade, dormiam em currais de animais, apanhavam quando não agradavam a medíocre Lusa; arrogância prepotência a acompanhava.
            Eles a serviam com as mãos, ela os chutava com os pés. Nunca abaixou sua crista para pedi-los perdão. O tempo passava e Lusa ficava cada vez mais seca, maldosa, vaidosa. Os seus filhos, que cresciam sem rédeas, abusavam das moças índias, que também eram criadas de Lusa. Por outro lado, Brasil foi totalmente dominado, subjugado, oprimido e desprezado por uma mulher que tinha sangue com tendências vaidosamente voltada para ambição e o poder.
            Os filhos da África eram pisados, vilipendiados, humilhados, maltratados. Um dia, quando Brasil chegou em casa, viu Lusa com uma espada suja de sangue e a indagou:
            ─ Que sangue é esse? Que sangue é esse?
            ─ É dum cachorro vira lata que comeu o bife que estava na mesa!
            Numa noite, Brasil foi perguntá-la se ela se lembrava dos bons momentos que passaram juntos, ela falou-lhe duramente:
            ─ Passado é passado; não volta mais. Eu sou agora sua dona. Tu fazes o que eu quero, não o que tu queres. Obedeça-me e me terás como mulher, senão me deito com o primeiro que aparecer na minha frente, mas que não seja tão bobo como tu és, rei dos animais.
            Outro dia, contaram os criados da casa que Lusa colocou sobre os pés uma dose de mel de abelha, e fez com que Brasil lambesse. Ele lambeu aquilo como um cão faminto, e ela ria, ria, ria,ria... Borboleta poderosa!
            Outra vez, diziam eles que a viram montada nas costas de Brasil, com o chicote que os verdugos espancavam os filhos da África.
            Onde será que ficou aquela brandura de antes? Como pode um coração cheio de amor, ficar tão rancoroso assim? Brasil, não a fazia feliz antes? Como mudou depois das riquezas? Porventura não foram as palavras pesadas de sua mãe, que a fez enfurecer? O que será do futuro de meu amigo Brasil sofrendo tanto assim? Morrerá ele? O penoso esforço para quitar a divida de Lusa não o incomodava? Estava ele gostando de ser escravo da própria esposa que o deu filhos, o ensinou a falar seu idioma, superficialmente sua cultura, como pode desprezá-lo tanto? Ele se sacrificava por ela. Como compreender um amor verdadeiro e mentiroso ao mesmo tempo?
            ─ Ajadja, Ajadja, seu amigo tá numa fria, né? ─ interroguei Ajadja.
            ─ É, meu filho, vejo que lágrimas caem dos teus olhos, é impossível uma pessoa sensível ouvir esses trechos e não chorar, só se não tiver um coração ou sentimento. Não  conheço homem nenhum nessa vida que vem sofrendo tanto como Brasil.
            Depois de tanta amargura de espírito, vendo Brasil que o coração de Lusa não batia mais por ele. Plantou um canavial, construiu um engenho de madeira para fazer rapadura e acabou fazendo cachaça. Todos os dias pelas tardes, enchia a cara, chegava só o bagaço em casa. Lusa nem Tchuumm. Certa noite, até cuspiu no rosto dele e disse: 
            ─ Não me casei com um homem, mas com um bicho que achei no mato.
            Pobremente doentizada pela ganância, esqueceu-se do episódio da onça, esse varão arriscou sua vida por essa tal de Lusa. Eu sempre digo: quem está com a barriga cheia hoje, dificilmente se lembra da fome de ontem.   
            A mulher estava tão encapetada que, numa noite fria de junho, obrigou um escravo dormir no chiqueiro com os porcos,  apenas porque não foi trabalhar por causa de dores de dente.
            Isso foi uma das causas que obrigou muitos deles a fugirem para quilombo. A super humilhação e desumanidade desta que se tornara desumana.   
            ─ Pare! Pare um minuto! Por favor, Ajadja, mais uma pausa. Que coisa! Quero esfriar a memória... é muito dolorosa essa história, nunca escutei algo semelhante, pois tudo que me contas é real. Se fosse inventada seria fácil, essa é a diferença de Ajadja para uma multidão de fadas e Duendes dos livros. As obras deles não passam de mera literatura. Ajadja não! Traz a realidade do passado nua e crua, com uma simples narração e a expõe numa varanda de uma casa antiga, do interior de Minas Gerais.
Vestido com sua camisa preferida: um xadrez típico da região, ele volta no próximo capítulo.
            Um descanso...





























CAPÍTULO XIII

O DIVÓRCIO DE BRASIL FINDOU OU NÃO O SOFRIMENTO?


            Ajadja, que estava cansado de tanto falar, pediu-me uma breve licença para tomar um banho de chuveiro. Passados  alguns minutos, trouxe uma chaleira com chá de erva-doce, me deu numa xícara com a escrita: “De: Brasil. Para: seu eterno amor Lusa.”
            Fiquei reparando aquilo pasmado, como ele conseguiu essa relíquia de museu?
            Vendo que estava admirado disse-me:
            ─ Hoje tu vês isso e ficas admirando? Mas, se vivesse naquela época, não daria o mínimo valor. Hoje tu me escutas, talvez não reverencias muito as verdades que te falo... Quem me garantirá que amanhã não me respeitarão assim como respeitas e estimas esta xícara, como peça inestimável? Creio que não me verão hoje, depois de amanhã, olharão para meu rosto e o verão brilhar o  mesmo brilho que não enxergaram ontem. As trevas cegam os olhos dos cegos, e eu não quero que tu sejas um questionador que solta dúvidas de lacunas no ar. Seja  gênio agora, não aqueles antigos das lâmpadas mágicas, que as pessoas dizem que são os gênios da sabedoria, que querem nos mudar com propostas de Três escolhas. Estão  enferrujados nas Lâmpadas, que me recuso acreditar no que dizem. Se fossem mesmo gênios, não estariam presos esperando que alguém leia o livro “encantado” toque a Lâmpada e os liberte da literatura... Teriam feito alguma coisa para provar que o que dizem fusiona! Jesus Cristo curou e libertou os enfermos para provar sua verdade! Eu quero ajudar meu querido Brasil! Eu o amo muito, pois muito me ajudou e tem ajudado, sou grato a esse homem de dores. Por tudo que sou, não pelo que tenho, pois não tenho nada, sou alguma coisa, nada levarei para meu caixão. Tudo fica, tudo passa, eu não passarei e não ficarei, no infinito com o Altíssimo habitarei.  Oh, varão atencioso, não te negaria essa verdade, que Brasil, divorciou-se da Donzela Lusa, quem suportaria por amor o que ele suportou?
─ Só Jesus Cristo, que foi o mais pisado dos homens, padeceu e não abriu a boca. Morreu como ovelha no matadouro, por amor a humanidade “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu filho, unigênito, para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna” (João-3-16)
            O casal desajustado não aguentava mais as brigas, confusões que aconteciam entre os dois, vociferava a Lusa:
            ─  Eu te odeio, pé rapado! Vira- lata!
            Brasil respondia irado: 
            ─ Te detesto, burguesa vulgar! Está pobre e não quer perder a pose de princesa!
       Os filhos ouviam essas guerras, leem em livros da história do Brasil e crescem traumatizados, revoltados com a mãe que os abandonou, não  há paz nos corações. Por  outro lado, os criados da África, tinham isso como uma boa oportunidade de se rebelarem, foi aí, que uma tal de Isabel Barbosa, se tornou canonizada entre os criados. Foi  uma revolucionária que pregava o fim do abuso de Lusa, que tinha o apoio de Brasil. Foram os pioneiros da escravidão, que imperou muito tempo.
            O homem era manipulado pela portuguesa. Numa estação de angústia e dor, Brasil estava bebendo muito, se consumindo nos trabalhos, a vida não tinha mais significado,  e “Lusa” pensava em voltar para sua pátria, pedir perdão para  sua mãe, e tentar outros negócios por lá, embora não lhe faltasse nada. Brasil tinha se envolvido no comércio e estava se saindo bem, prosperava, e ela devorava. O vazio do coração dela era grandíssimo, nada o preenchia, não sentia mais amor por Brasil. Esse foi explorado. Era um colono escravo, estava exausto e sua rosa espinhosa, morta e impregnada de espinhos que o furava quando se encostava-se nela.
            Certa manhã, o índio frustrado abraçou a Lady,  a beijou a força, isso para ver se a dor de ser um apaixonado pisado o abandonava. A “baiana rodou” um tapa de ódio e nojo, que jogou Brasil numa poça de lama, que estava na frente do jardim.  Ele se ergueu cabisbaixo, e se assentou numa pedra e chorava com uma dor tão profunda, tão intensa, amarga e fria, que só sabe quem sofreu essa ferroada!
            Lusa sorria, proseando para umas portuguesinhas, o que fizera com seu macho, como o desprezara, ainda cuspiu na cara dele quando se levantou...
            Toda Europa ficou informada do que aconteceu, com Brasil e Lusa. Como  foi vexado na miséria o aliançado moreno, com a Poderosa mulher loura. Tu pensas que ela deve ser um gigante avião, de uns dois metros de altura. Enganou-se! É um toco de mulher, pequena diante do imenso tamanho de Brasil, mas tu sabes o ditado: Tamanho não é documento!
            Sete de setembro, Brasil acordou decidido, montou no seu cavalo, convocou companheiros, todos foram para as margens do córrego Ipiranga. Deve ser um esgoto dos nossos dias, longe do prestígio, não confere significado para ninguém.
            Amargos  de espírito, por ver um valente Guarani sofrer nas garras de uma pé de chinelo, que se imaginava auto-suficiente, ergueram as espadas e ouviu-se o famoso grito      ─ “Divórcio ou morte!”
            Melhor dizendo:
            ─ “Independência ou morte!”
            Lusa nem se importou, não estava nem aí... Queria o fim mesmo desse romancinho vagabundo, coisa de meio de mato, transa de fundo de quintal.
         Passaram-se os dias, a exploradora arrumou suas malas, e voltou para Portugal. Uns  dizem  que foi forçada, pura mentira do diabo! Saiu daqui quando bem quis, e não me venham com papo de historiador. Aquela separação foi combinada, Brasil sempre foi um frouxo. É homem, mas nunca se comporta como tal. São  dois safados sem-vergonha, por isso são o que são hoje. Quando se esfria o amor, a consequência e a separação, cada um vai para seu lugar, viver uma vida independente!
            Estão divorciados, seus filhos sofrem. Brasil continua sofrendo, aventurou montar uma indústria. Vive endividado com todo mundo, algumas de suas filhas viraram prostitutas, outros ladrões, traficantes, e os pequenos foram parar nas ruas.  Eu me pergunto: de  que adianta uma união, que gera mais males do que bens?
            É lógico que muitos cresceram na vida, e o que é isso, se compararmos com os perdidos?
        




















CAPÍTULO XIV

COMO VIVE LUSA E COMO VIVE BRASIL?

            Lusa virou uma velha rugosa, exaltada na pose de matrona mendiga sem trono. Quando os teus filhos mulatos do relacionamento com Brasil vão visitá-la, os despreza. Um  dia, a vi os deportá-los. Colocando-os de volta em um avião. Quando transava com o índio guarani, não pensava assim. Mulher ignorante... Filhos são feitos para serem amados, sejam pobres, sejam ricos. Vieram daquele ventre sujo, que se engana na ambição de poder... Sendo uma medíocre velha de mente cauterizada. Oh! Tu tão  tens filhos puros? Acho que tu querias ter se casado com o inglês. Receba teus filhos, Lusa, que mamaram nos teus seios, tu não és mais realeza, teus filhos se uniram com as irmãs de Brasil, umas filhas ousadas se envolveram com os criados da África. Lusa! Lusa! Lusa! Lusa! Sua coroa está aqui!
            Os teus filhos não são culpados, assuma a tua infelicidade com Brasil. O passado morreu. Sua  ganância e vaidade, matou a felicidade, amantes quase inimigos, perdoem-se!
            ─  Ajadja, está chegando ao fim... Como está o ilustre Brasil? ─ interroguei  o filósofo Ajadja ─ Quero que me digas, agora, quantos anos tu tens? Depois me fales como anda Brasil! Não esqueci... tu não me respondestes, falastes de pés de alface e jatobá... É, né? Querendo me enrolar? Sou jovem, mas sou lúcido!
            ─ Ahaháhahráráhá. ─ gargalhou Ajadja.
            ─ Quantos anos tenho? Tu não queres a idade de Brasil? 50 vezes ou mais tem ele minha experiência, multiplicando isso por 10 e dividindo por 20 é mais ou menos minha experiência. Quanto à idade... não vem ao caso! Se experiência vale alguma coisa para tu, a consideres antes aos dias contados nas pontas dos dedos. Estou  cansado de matemática, faz o homem ficar velho!
            ─  Ajadja, tu és um suspense, há muito tempo queria conhecê-lo.
            ─ Tu não jogas conversa fora Eu jogo muito, mas tu aproveitas o meu desperdício para ensinar-me duras lições, obrigado! Obrigado! Termine tua história, é muito legal, ótima e real!!
            ─  Tu queres as novas do ilustre Brasil? Anda muito religioso, com uma bíblia debaixo do braço, está frequentando igrejas evangélicas, desgostou da religião de Lusa, que falava do amor de Cristo, e o matava de tanta exploração. Seguia tudo pelas metades, mandava até rezar missas para os índios de sua tribo, mas nunca viveu o que pregou. Toda falsidade, corrupção e violência que colhemos e fruto da plantação de Lusa, com sua “Companhia de Jesus”, que não demonstrou o amor devido ao seu esposo Brasil. Eu o apoio, vire cristão mesmo, Brasil! Deus pode curar suas feridas, causadas pela opressão da princesa portuguesa. Tristemente, digo-te que também sou filho de Lusa! Filho de Brasil! Eu os amo, são meus pais.
            ─ Agora estou Louco!  Tu és filho de Lusa?
            ─ Sim, querido! Tu também deves ser, ela andou pulando a cerca em Ouro preto, Diamantina... Isso não vou detalhar senão acabo com os heróis inconfidentes...  Não posso fazer isso. Quem as crianças irão estudar no primário? ─ ironicamente sorriu Ajadja e continuou. ─ Não vamos acabar com o patrimônio de Minas Gerais, meu estado. Uma alerta quero deixar acrescentado neste livro que leio na varanda. Após romper com Lusa, Brasil teve outras estrangeiras, que geraram filhos, alemãs, coreanas, japonesas, italianas e mulheres de outros países... Uma  coisa me preocupa, o meu amigo anda de bate papo com umas gringas de olhos azuis dos Estados Unidos e Europa. São riquíssimas, estão de olho no guarani moreno. Sei  de uns casos por aí afora, que suas riquezas vieram dos tombos em varões de outros países. O  que querem elas com meu amigo Brasil? Tudo que tem hoje é uma reserva que o Governo o deu, bem distante, chamado de confins da Amazônia. Será  que estão querendo se engajar com Brasil? Para  depois divorcia-se e herdar um pedaço de suas terras tribais? Divórcio hoje é metade para lá, metade para cá. Fuja dessa aliança de casamento, Brasil! Não seja tolo de novo! Elas são maduras, em maioria avançadas em idade, mas tombaram muitos homens. Não se acertam em relacionamentos com ninguém, são mulheres vagabundas!
            Fiquei fascinado pelo realismo das palavras de Ajadja que concluiu:
            ─  Meu querido jovem, aqui termino o que comecei, tudo que tu começas, deves dar um fim, mesmo que a bola venha rolar outra vez, será outra partida; essa acabou, quem sabe jogaremos outra? O campeonato não acabou, só o jogo. Quero que tu sejas um atleta de ouro. Tudo  que te contei está escrito no livro que estou nas mão, e só ler um exemplar...  Dizem que eu sou louco e caduco. Tudo bem, prefiro isso ao invés de Paulo bizarro com sobrenome de orelhudo comedor de cenoura vendendo milhões de selos de onze minutos... Quem ama Brasil ama minha Lusa.
            ─ Ah, tu és sábio, senhor Ajadja.  Escrevia-te muitas cartas, me deste algumas respostas estranhas. Agora o conheço pessoalmente, vou te visitar mais vezes. Sou um mancebo sozinho, assim o direito ao dever se manifesta mais reflexivo.
            ─ As portas de minha simples casa estão abertas para quem deseja discutir assuntos polêmicos, pois são os meus favoritos.
            ─ Sim! Sim!
            Com meus olhos brilhando e com lágrimas, dei um abraço e me despedi de Ajadja.         Quem sabe um dia, Brasil, seu grande amigo, que ama tanto, possa ouvi-lo, para deixar de ser tolo. São os conselhos de amigos sábios que constroem os corações que mudarão o futuro triste das pessoas sofredoras, como o amigo da história de Aja-dja BRASIL II.

AJA-DJA Brasil (2001)

AJA-DJA Brasil (2001)
Obra apresentada no salão de poesia "Psiu Poético" (Montes Claros-MG)

Sobre o Poeta Joel Almeida

O POETA MORREU, AGORA O POETA VIVEU?